A Incerteza do movimento de uma bola Oval "¿Qué clase de mundo es éste que puede mandar máquinas a Marte y no hace nada para detener el asesinato de un ser humano?" José Saramago
Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008
Um novo 25 de Abril

O General Loureiro dos Santos, vem a público avisar que «Descontentamento de militares pode levar a movimentações "irreflectidas"».

Os militares, segundo esta alta e graduada patente, estão nas casernas a preparar uma acção, contra os interesses da democracia portuguesa.

Será que os Professores, Médicos, Operários, Funcionários Públicos, entre tantas outras profissões da sociedade portuguesa, também muito afectadas, estão nas suas «casernas» a preparar um assalto ao poder luso?



publicado por blogoval às 21:37
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Magalhães Tim-Tim

O famoso Magalhães, o computador que destronou outros históricos «magalhães» lusos, personifica a fúria tecnológica de Socrates.

Por engraçado que seja, também é um Tim-Tim, porque segundo o mesmo Socrates, é dos 7 aos 77.

Mas será tipo Marretas...



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Heavy Metal e o «Demo»

A musica do «Demo» esteve em debate e análise na TSF. AQUI, para os conhecedores e os desconhecedores



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007 volta ao serviço de sua magestade...

James Bond  «007»

Quantum of Solace

Estreia por estes dias o novo filme da múltipla saga de Bond.

O agente, mais que secreto ao serviço de sua magestade.

Promete

 



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«O Caderno de Saramago» - Novo capitalismo?

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Novo capitalismo?

Para que continue a reflexão, o Manifesto abre por mais um dia o Caderno.

Há uns dias atrás, várias pessoas de diversos países e diferentes posições políticas, subscrevemos o texto que reproduzo abaixo. É uma chamada de atenção, um protesto, a expressão do alarme que sentimos diante da crise e das possíveis saídas que se afiguram. Não podemos ser cúmplices.

“Novo capitalismo?”

Chegou o momento da mudança à escala pública e individual. Chegou o momento da justiça.

A crise financeira aí está de novo destroçando as nossas economias, desferindo duros golpes nas nossas vidas. Na última década, os seus abanões têm sido cada vez mais frequente e dramáticos. Ásia Oriental, Argentina, Turquia, Brasil, Rússia, a hecatombe da Nova Economia, provam que não se trata de acidentes conjunturais fortuitos que acontecem na superfície da vida económica mas que estão inscritos no próprio coração do sistema.

Essas rupturas, que acabaram produzindo uma contracção funesta da vida económica actual, com o argumento do desemprego e da generalização da desigualdade, assinalam a quebra do capitalismo financeiro e significam o definitivo ancilosamento da ordem económica mundial em que vivemos. Há, pois, que transformá-lo radicalmente.

Na entrevista com o presidente Bush, Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, declarou que a presente crise deve conduzir a uma “nova ordem económica mundial”, o que é aceitável, se esta nova ordem se orientar pelos princípios democráticos – que nunca deveriam ter sido abandonados – da justiça, liberdade, igualdade e solidariedade.

As “leis do mercado” conduziram a uma situação caótica que levou a um “resgate” de milhares de milhões de dólares, de tal modo que, como se referiu acertadamente, “se privatizaram os ganhos e se nacionalizaram as perdas”. Encontraram ajuda para os culpados e não para as vítimas. Esta é uma ocasião única para redefinir o sistema económico mundial a favor da justiça social.

Não havia dinheiro para os fundos de combate à SIDA, nem de apoio para a alimentação no mundo… e afinal, num autêntico turbilhão financeiro, acontece que havia fundos para que não se arruinassem aqueles mesmos que, favorecendo excessivamente as bolhas informáticas e imobiliárias, arruinaram o edifício económico mundial da “globalização”.

Por isto é totalmente errado que o Presidente Sarkozy tenha falado sobre a realização de todos estes esforços a cargo dos contribuintes “para um novo capitalismo”!… e que o Presidente Bush, como dele seria de esperar, tenha concordado que deve salvaguardar-se “a liberdade de mercado” (sem que desapareçam os subsídios agrícolas!)…

Não: agora devemos ser resgatados, os cidadãos, favorecendo com rapidez e valentia a transição de uma economia de guerra para uma economia de desenvolvimento global, em que essa vergonha colectiva do investimento de três mil milhões de dólares por dia em armas, ao mesmo tempo que morrem de fome mais de 60 mil pessoas, seja superada. Uma economia de desenvolvimento que elimine a abusiva exploração dos recursos naturais que tem lugar na actualidade (petróleo, gás, minerais, carvão) e que faça com que se apliquem normas vigiadas por uma Nações Unidas refundadas – que envolvam o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial “para a  reconstrução e desenvolvimento” e a Organização Mundial de Comércio, que não seja um clube privado de nações, mas sim uma instituição da ONU – que disponham dos meios pessoais, humanos e técnicos necessários para exercer a sua autoridade jurídica e ética de forma eficaz.

Investimento nas energias renováveis, na produção de alimentos (agricultura e aquicultura), na obtenção e condução de água, na saúde, educação, habitação… para que a “nova ordem económica” seja, por fim, democrática e beneficie as pessoas. O engano da globalização e da economia de mercado deve terminar! A sociedade civil já não será um espectador resignado e, se necessário for, utilizará todo o poder de cidadania que hoje, com as modernas tecnologias de comunicação, possui.

Novo capitalismo? Não!

Chegou o momento da mudança à escala pública e individual. Chegou o momento da justiça.

Federico Mayor Zaragoza
Francisco Altemir
José Saramago
Roberto Savio
Mário Soares
José Vidal Beneyto



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Terça-feira, 28 de Outubro de 2008
«O Caderno de Saramago» - Fernando Meirelles & Cª

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Fernando Meirelles & Cª

A história da adaptação de Ensaio sobre a cegueira ao cinema passou por altos e baixos desde que Fernando Meirelles, aí pelo ano de 1997, perguntou a Luiz Schwarcz, meu editor brasileiro, se eu estaria interessado em ceder os respectivos direitos. Recebeu como resposta uma peremptória negativa: não. Entretanto, no escritório da minha agente literária em Bad Homburg, Frankfurt, começaram a chover, e choveram durante anos, cartas, correios electrónicos, chamadas telefónicas, mensagens de toda a espécie de produtores de outros países, em particular dos Estados Unidos, com a mesma pergunta. A todos mandei dar a resposta conhecida: não. Soberba minha? Não era questão de soberba, simplesmente não tinha a certeza, nem sequer a esperança, de que o livro fosse tratado com respeito naquelas paragens. E os anos passaram. Um dia, acompanhados pela minha agente, apareceram-me em Lanzarote, vindos directamente de Toronto, dois canadianos que pretendiam fazer o filme, Niv Fichman, o produtor, e Don McKellar, o guionista. Eram gente nova, nenhum deles me fazia recordar o Cecil B. de Mille, e, depois de uma conversa franca, sem portas falsas nem reservas mentais, entreguei-lhes o trabalho. Faltava saber quem seria o director. Outros anos tiveram de passar até ao dia em que me foi perguntado o que pensava eu de Fernando Meirelles. Completamente esquecido do que havia sucedido naquele já longínquo ano de 1997, respondi que pensava bem. Tinha visto e gostado da Cidade de Deus e do Fiel Jardineiro, mas continuava sem associar o nome deste director à pessoa do outro…

Finalmente, o resultado de tudo isto já está aqui. Traz o título de Blindness, com o qual se espera facilitar a sua relação com o livro no circuito internacional. Não vi qualquer motivo para discutir a escolha. Hoje, em Lisboa, foi a apresentação deste Ensaio sobre a cegueira em imagens e sons. A plateia estava bem servida de jornalistas que espero dêem boa conta do recado. Amanhã será a ante-estreia. Conversámos sobre estes episódios já históricos e, em dado momento, Pilar, a mais prática e objectiva de todas as subjectividades que conheço, lançou uma ideia: “No meu entender, o livro antecipou os efeitos da crise que estamos a sofrer. As pessoas, desesperadas, correndo por Wall Street, de banco em banco antes que o dinheiro se acabe, não são outras que as que se movem, cegas, sem rumo, no romance e agora no filme. A diferença é que não têm uma mulher do médico que as guie, que as proteja”. Reparando bem, a andaluza é capaz de ter razão.



publicado por blogoval às 19:29
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«O Caderno de Saramago» - Quando for crescido quero ser como Rita

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Quando for crescido quero ser como Rita

Esta Rita a quem quero parecer-me quando for crescido é Rita Levi-Montalcini, ganhadora do Prémio Nobel de Medicina em 1984 pelas suas investigações sobre o desenvolvimento das células neurológicas. Ora, Prémio Nobel é coisa que já tenho, logo não seria por ambição dessa grande ou pequena glória, as opiniões dos entendidos divergem, que estou disposto a deixar de ser quem tenho sido para tornar-me em Rita. De mais a mais estando eu numa idade em que qualquer mudança, mesmo quando prometedora, sempre se nos afigura um sacrifício das rotinas em que, mais ou menos, acabámos por nos acomodar.

E por que quero eu parecer-me a Rita? É simples. No acto do seu investimento como Doutora “Honoris Causa” na aula magna da Universidade Complutense, de Madrid, esta mulher, que em Abril completará cem anos, fez umas quantas declarações (pena que não tenhamos conseguido a transcrição completa do seu improvisado discurso) que me deixaram ora assombrado, ora agradecido, posto que não é fácil imaginar juntos e unidos estes dois sentimentos extremos. Disse ela: “Nunca pensei em mim mesma. Viver ou morrer é a mesma coisa. Porque, naturalmente, a vida não está neste pequeno corpo. O importante é a maneira como vivemos e a mensagem que deixamos. Isso é o que nos sobrevive. Isso é a imortalidade”. E disse mais: “É ridícula a obsessão do envelhecimento. O meu cérebro é melhor agora do que foi quando eu era jovem. É verdade que vejo mal e oiço pior, mas a minha cabeça sempre funcionou bem. O fundamental é manter activo o cérebro, tentar ajudar os outros e conservar a curiosidade pelo mundo”. E estas palavras que me fizeram sentir que havia encontrado uma alma gémea: “ Sou contra a reforma ou outro qualquer outro tipo de subsídio. Vivo sem isso. Em 2001 não cobrava nada e tive problemas económicos até que o presidente Ciampi me nomeou senadora vitalícia”.

Nem toda a gente estará de acordo com este radicalismo. Mas aposto que muitos dos que me lêem vão também querer ser como Rita quando crescerem. Que assim seja. Se o fizerem tenhamos a certeza de que o mundo mudará logo para melhor. Não é isso o que andamos a dizer que queremos? Rita é o caminho.



publicado por blogoval às 19:28
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Saramago em «The New Yorker»

The New Yorker: O extraordinário e o subtil em Saramago. Por James Woods

O filósofo Bernard Williams escreveu um artigo, “O Caso Makropulos”, onde argumentava que a vida eterna seria tão entediante que ninguém a conseguiria suportar. De acordo com Williams, a monotonia que define um ser eterno representaria um infinito deserto de experiências repetitivas que o levaria a uma existência esvaziada de qualquer definição. Essa é a razão que leva, na peça de Karel Capek, da qual Williams retirou o seu título, Elina Makropulos (com os seus 342 anos de idade) a deixar de beber o elixir da eterna juventude, o que faz desde os seus 42 anos, optando por morrer. A vida precisa da morte para se realizar; a morte é o período negro que define a sintaxe da vida.

Em “As Intermitências da Morte” (traduzido do português por Margaret Jull Costa; Harcourt; $24), José Saramago, um escritor de longas e ininterruptas frases, produziu uma narrativa que funciona como uma experiência na área de Capek/Williams. (O romance não faz alusão a nenhum dos dois). À meia-noite de uma véspera de Ano Novo, num país sem nome com cerca de dez milhões de habitantes, a Morte declara uma trégua à Humanidade, uma auto-interrupção, dando às pessoas uma ideia de como seria viver para sempre. No início, como seria de esperar, a população fica eufórica.

Mas a estranheza – metafísica, política, pragmática – cedo reaparece. A Igreja Católica é a primeira instituição a pressentir o perigo. O Cardeal telefona ao Primeiro-Ministro para referir que “se acabasse a morte não poderia haver ressurreição, e que se não houvesse ressurreição, então não teria sentido haver igreja.” Para o Cardeal, a vida sem morte equivale ao fim da existência de Deus. A vida sem morte significa a abolição da alma. Um painel de filósofos e clérigos é convocado e ambos os lados concordam que a religião precisa da morte “como do pão para a boca”. A vida sem morte é como a vida sem Deus, afirma um homem da igreja, dado que “se os seres humanos não morressem tudo passaria a ser permitido”. (Esta é a versão do medo Dostoyevskiano, de que sem Deus tudo é permitido.) Um filósofo, soando como o talentoso Saramago, sugere que se a morte é o único instrumento de Deus para preparar o caminho que leva ao seu reino, a óbvia e irrefutável conclusão de toda esta santa história resulta inevitavelmente num beco sem saída.

Um país onde ninguém morre torna-se naturalmente um zoo Malthusiano. Os mais velhos, os que se encontravam na margem da morte na véspera de Ano Novo aí continuam, congelados na sua inactividade. Os coveiros, os que vendem seguros de vida e os directores de hospitais e lares de terceira idade vêem-se ameaçados pelo desemprego ou pelo excesso de trabalho. O Estado torna-se rapidamente incapaz de pagar a sobrevivência dos seus cidadãos. E embora esta súbita utopia possa ser agora o melhor dos mundos possíveis, os seres humanos podem sempre depender de utopias destroçadas. Famílias com idosos acamados percebem que necessitam da morte para os aliviar de uma eternidade de assistência familiar. Já que a morte não se auto-suspendeu nos países vizinhos, a óbvia solução passa por levar o moribundo avô ao outro lado da fronteira para que a morte cumpra o seu papel. Uma organização do tipo mafioso assume este transporte para a morte, numa operação com a conivência secreta do governo, já que nenhum estado pode aguentar uma expansão infinita. Como afirma o Primeiro-Ministro em conversa com o Rei, “se não voltarmos a morrer não temos futuro.”

“As Intermitências da Morte” é um pequeno acrescento à obra de um grande romancista. Saramago justifica de forma eficiente a sua hipótese e cria rapidamente um conjunto de penetrantes questões teológicas e metafísicas sobre o desejo de utopia, sobre a existência de Deus e sobre os verdadeiros alicerces da religião. Os recentes trabalhos de Saramago inclinam-se para a alegoria, com personagens sem nome, com actores universais no papel de personagens individuais. Estes livros seriam sobretudo ensaísticos não fossem as extraordinárias frases de Saramago e a subtileza da sua narração. Na ausência de personagens concretas, as frases de Saramago, onde um narrador ou um grupo de narradores está sempre presente, constituem uma espécie de comunidade muito própria: uma comunidade extremamente humana.

Alguma da mais importante escrita dos últimos trinta anos assentou na frase longa e desregrada – pense-se em Thomas Bernhard, Bohumil Hrabal, W. G. Sebald, Roberto Bolaño – mas nenhum destes autores soa exactamente como Saramago. Ele tem a capacidade de parecer sábio e ignorante ao mesmo tempo, como se não estivesse verdadeiramente a narrar as histórias que conta. Saramago utiliza com frequência o que se pode chamar de estilo indirecto livre – as suas narrativas soam como se estivessem a ser contadas não por um autor, mas, podemos dizê-lo, por um grupo de velhos homens sábios sentados no porto de Lisboa, fumando um cigarro, sendo um deles o próprio escritor. Um grupo portador de verdades, provérbios e clichés. “Está escrito que não se pode ter tudo na vida”, diz-nos o narrador de “As Intermitências da Morte”, acrescentando, “É assim a vida, vai dando com uma mão até que chega um dia em que tira tudo com a outra.” Verdades que não são confirmadas nem negadas; mas sim ironizadas pela óbvia distância que vai do conhecido escritor à pessoa ou pessoas que parecem contar estas narrativas.

O estilo é um acessório importante desta ironia: a falta de respiração empresta uma sensação de desregramento coloquial, como se diferentes pessoas interviessem para fazer ouvir a sua voz. Uma simples frase longa parece frequentemente ter sido escrita por diferentes vozes, e a confusa falta de pontuação permite astutas reviravoltas e mudanças, como quando um cliché se apanha como um cliché. Na frase sobre a extemporânea alegria da população quando a morte se suspende, repare-se que uma poética imagem do Anjo da Morte dá lugar a uma imagem mais trivial e depois a um puro e esgotado cliché, e que esta progressão permite a simultânea presença do escritor, com as suas imagens, e das pessoas sobre quem escreve, que têm as suas. E uma mudança mágica ocorre: quando atingimos o final dessa frase sobre a morte, a sofisticada e mítica imagem da morte parece, de alguma forma, menos poderosa que a imagem mais banal.

A narração de Saramago parece ao mesmo tempo moderna e antiga. O escritor é autoconsciente no seu trabalho, chamando constantemente a atenção para a narração, ainda que esta pareça mergulhar facilmente numa mochila universal, abanando as suas ossudas, sábias verdades. É esta perspicaz e modesta faceta que permite a Saramago escrever as suas especulativas e fantásticas ficções como se fossem os mais verosímeis acontecimentos, e dar-lhes uma sólida carga literária – um país sem nome dominado por uma epidemia de cegueira, a Península Ibérica separada do continente europeu transformando-se numa gigantesca ilha flutuante, um homem percorrendo as ruas de Lisboa, sendo, ao mesmo tempo, real e um fantasma literário. O seu trabalho está de alguma forma mais próximo de um satírico clássico como Luciano, cujos textos imaginam pessoas viajando até à Lua ou até ao Hades, ou os deuses lutando entre si, do que de qualquer romancista contemporâneo. Quando, no novo romance de Saramago, a Morte decide finalmente pôr fim à sua “interrupção” e deixa a mortalidade voltar ao seu caminho, a Igreja, que defendia essa solução, mostra-se agradada. Esta voz aguçada, de influência antiteológica, é herdeira não só de Luciano mas do Lucianista Leon Battista Alberti, que na sua sátira do século XV, “Momus”, imagina o caos que assolaria o Céu se todos pedissem a Deus para responder a uma oração ao mesmo tempo.

O conciso romance de Saramago coloca questões semelhantes. Se a vida eterna não poderia funcionar na Terra, por que seria a eternidade celestial tão ardentemente desejada? Talvez porque desejamos desesperadamente que o Céu seja o mesmo que a terra mas ao mesmo tempo muito diferente, assumindo que o homem arruína o Paraíso. Para Saramago, tal como para Bernard Williams, o problema não está apenas no facto de os humanos serem inatos assassinos de utopias; mas no facto de a própria eternidade – a vida eterna – parecer insuportável. E Saramago faz mais do que desafiar Dostoyevski neste romance. Porque se o desaparecimento de Deus significa que “tudo é possível”, e o desaparecimento da morte significa o mesmo, então, pelo catecismo tácito do romancista, Deus deve ser a morte e a morte deve ser Deus. Nenhuma religião precisa da morte: a morte é o único Deus em que podemos acreditar.

Saramago sente-se atraído por estas inversões Gnósticas. Naquele que é talvez o seu maior livro, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991), o romancista, caracteristicamente, conta a história da vida e da morte de Jesus sem alterar qualquer um dos factos mais conhecidos, virando ao mesmo tempo a teologia dos Evangelhos de pernas para o ar. Um dia, o pai de Jesus, José, ouve alguns soldados comentando as ordens de Herodes para matar todas as crianças com menos de três anos. Corre para casa para esconder a sua mulher e o seu filho recém-nascido, mas esquece-se de avisar o resto da aldeia. Por este pecado, diz um anjo mais tarde a Maria, José irá sofrer. E o meu filho? pergunta Maria ao anjo. “O anjo disse, A culpa de um pai cai sobre a cabeça dos seus filhos, e a sombra da culpa de José já escurece a testa de seu filho,” escreve Saramago. Mais tarde, José é capturado por soldados romanos pondo fim a uma revolta e é crucificado com outros trinta e nove judeus. Jesus, por seu lado, torna-se obcecado por um sentimento de culpa herdada, e com a ideia, tal como ele a coloca, de que “Os pais mataram os filhos de Belém”. Com a força de um raio lançado pelo dedo blasfemo do narrador, Saramago torna uma questão teológica familiar – o “bom” Deus que traz Jesus ao mundo é também o mau “Deus” que permite o massacre de crianças inocentes – na questão principal. Subitamente, Jesus é amaldiçoado por uma espécie de pecado original, e o seu sacrifício na Cruz torna-se não a expiação de um pecado humano mas a herança de um: ele segue os passos de seu pai, amaldiçoado pelo seu progenitor. “Deus não perdoa os pecados que nos obriga a cometer” é como o narrador o coloca. Na cruz, ouvindo as palavras do seu pai através das nuvens, “Tu és o meu Filho muito amado”, atira-lhe Jesus, “Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez.” Este é o final do romance, e a sua mais dura inversão.

“O Evangelho Segundo Jesus Cristo” foi extraordinariamente controverso no Portugal católico (Jesus dorme e vive com Maria Madalena), mas é o mais pio de todos os livros blasfemos. Por detrás das suas cruéis ironias, Saramago parece não fazer mais do que levar a Encarnação o mais seriamente possível: se Jesus nasceu homem, segundo o autor parece dizer, então herda tudo aquilo que é inerente a essa condição, incluindo pecar, o que de qualquer modo lhe vem de Deus. Os riscos são elevados, mas o temperamento autoral é enigmático, suave, moderado. E se Deus fosse o Diabo? parece perguntar o autor, espreitando-nos gentilmente através dos seus grandes óculos de aros pretos. Ele é, de alguma maneira, o menos fantástico dos romancistas porque persiste cruelmente nas suas hipóteses ficcionais, seguindo através delas até chegar a grandes conclusões humanas. O seu novo romance torna-se menos conceptual e cada vez mais perturbador, sem nunca se tornar realista, em qualquer sentido convencional, ou até plausível.

Imagina a Morte para nós como uma abstracção com corpo de mulher, um esqueleto que vive num quarto frio, subterrâneo, acompanhado apenas pela sua muito utilizada foice. (E também lhe nega um M maiúsculo). Após sete meses de auto-interrupção, esta deusa sombria envia uma carta para uma estação de televisão, anunciando que está a terminar a sua experiência, pelo facto de os humanos se terem comportado “deploravelmente”. As pessoas voltarão a morrer à média anterior, de cerca de trezentas por dia. De acordo com as novas regras, os cidadãos cujo tempo tenha chegado ao fim receberão a notícia com uma semana de antecedência: cada um receberá uma carta de cor violeta, um aviso dado pela própria morte. Esta concessão aparentemente humanitária – o nomeado tem agora tempo para preparar a sua partida, deixar em ordem os seus pertences – é de uma crueldade insuportável, dado que a maior parte das pessoas preferiria ser surpreendida pela morte a ser condenada a ela.

Um desses nomeados, um violoncelista de cinquenta anos, desconcerta a deusa. A Morte escolheu-o para o seu fim próximo, mas a carta violeta é devolvida ao remetente, vezes sem conta; o violoncelista parece recusar as suas ordens. Numa série de belas e inesperadas cenas, a Morte, completamente perplexa, insinua-se no apartamento do violoncelista, e senta-se em silêncio observando o seu sono; vê-o levantar-se de noite para ir buscar um copo de água e deixar sair o cão, vê uma suite de Bach (No. 6) na sua cadeira, entre outras coisas. Este é o tempo para o músico morrer – “quando se lhes extinguir o tempo que lhes havia sido prescrito ao nascer” – mas a Morte parece não ter poder sobre “um homem qualquer, nem feio nem bonito.” Num romance anterior para o qual este novo é um companheiro óbvio , “Todos os Nomes”, um modesto auxiliar de escrita torna-se, do mesmo modo, obcecado por um cidadão perfeitamente normal, uma mulher cujo nome na certidão de nascimento o apanha de surpresa uma noite no seu local de trabalho, a Conservatória Geral do Registo Civil. Tal como neste novo romance, o auxiliar de escrita escolhe um cidadão a partir das listas dos que permanentemente morrem e vivem e gradualmente, sem sequer lhe dar um nome (o violoncelista, da mesma forma, mantém-se sem nome), atribui-lhe características metafísicas.

Isto é o que faz, também, o romancista: ele assume um nome, uma personagem, uma pessoa e salva-a do esquecimento pela irradiação de palavras. Mas pode também matá-la quando lhe apetecer: todo o romance é “interrompido” simplesmente porque acaba. Falamos de um poder autoral omnisciente porque os escritores têm o poder da vida e da morte sobre os seus “nomes”. O auxiliar de escrita em “Todos os Nomes”, que é conhecido apenas por Sr. José, partilha o nome próprio com o romancista. No seu novo romance, Saramago pede-nos novamente para reflectir sobre os poderes divinos do narrador. Quando a carta da Morte é publicada nos jornais, um gramático é consultado, e sublinha a “sua sintaxe caótica, [d]a ausência de pontos finais, [d]o nãouso de parêntesis absolutamente necessários, [d]a eliminação obsessiva dos parágrafos, [d]a virgulação aos saltinhos….” A Morte escreve como Saramago. Enquanto a Morte observa o violoncelista a beber, Saramago escreve que esta olhava para a água “e fazia um esforço para imaginar como seria sentir sede, mas não conseguiu.” O leitor questiona-se: se a Morte não pode imaginar o que é sentir sede, pode ela imaginar o que é a morte? E pode-o o romancista? Uma resposta que Saramago oferece – é a ampla, universal, antiga verdade para a qual a sua complexa ficção tem viajado – é a de que se não recuarmos perante a morte ou se não formos totalmente religiosos para a vencer mas, pelo contrário, aceitarmos a velha verdade de que no meio da vida encontramos a morte, então a morte rodeia-nos como a vida, e imaginar a morte é verdadeiramente imaginar a vida.

Por James Woods. New Yorker, 27 de outubro de 2008.
Ilustração de Ana Juan.
Tradução de Sérgio Letria.



publicado por blogoval às 19:26
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Blog Saramago

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Caminhamos pela vida como cegos da razão

Somos cegos, não usamos a razão: Esta poderia ser a conclusão da intervenção de José Saramago na conferência de imprensa de apresentação do filme ‘Ensaio Sobre a Cegueira’, adaptação cinematográfica da obra homónima do escritor português, realizada por Fernando Meirelles.

Num Auditório da FNAC Chiado completamente cheio, José Saramago, Fernando Meirelles, Niv Fishman e Don McKellar recordaram as diversas fases do projecto, desde a relutância de José Saramago em aceitar a cedência de direitos, até ao dia de hoje, em que depois de estrear nos EUA, Brasil e Japão, chega a Portugal numa antestreia que terá lugar no Freeport de Alcochete. Sobre a adaptação, José Saramago reafirmou o seu agrado e emoção ao ver transposta para o ecrã uma das suas obras mais importantes e, questionado sobre a fidelidade da adaptação, considerou que «Tem de haver um grau de fidelidade suficiente, mas o pior que pode haver é uma fidelidade excessiva ao livro. Um realizador é um criador, não é um mero copista». Em relação às críticas de alguns grupos que afirmaram ser ‘Ensaio Sobre a Cegueira’ um filme violento, Saramago refutou, declarando que «O filme é violento por uma questão de lógica: se de repente todas as pessoas cegam é óbvio que toda a estrutura social vá abaixo. Isto somos nós. E nós somos capazes do melhor e do pior, sobretudo do pior. O que é que estavam à espera? Ceguinhos a amparar ceguinhos? Há fome, não se sabe aonde ir buscar comida. Há caos. O caos gera a violência. O filme tinha de ser violento». Numa análise à obra e à situação actual de crise económica, José Saramago afirmou que «Estamos quase sempre cegos. Às vezes não nos apetece pensar mais além do que a nossa própria existência. O ideal era que todos fôssemos cidadãos activos», concluindo «Se há uma catástrofe em qualquer lado, aparecem logo países a querer ajudar, mas um ano depois a ajuda ainda não chegou. Como é possível demorar-se tanto a disponibilizar dinheiro para uma emergência e agora, de repente, saltam milhões? Onde estavam? O dinheiro apareceu para salvar vidas? Não: apareceu para salvar bancos. E dizem que sem bancos isto não funciona. Marx nunca teve tanta razão como hoje» (Ver vídeo).

Fernando Meirelles falou do elenco de actores, propositadamente constituído por actores de várias origens geográficas, desvendando que «A ideia foi formar um elenco multirracial, porque este é um problema da humanidade. A história é sobre o homem. Este foi um desafio enorme para os actores porque tinham de ficar de olhos abertos mas desligados, sem vida. Fizemos vários exercícios para se adaptarem. Torturei os meus actores [risos].»

Sobre ‘O Diário de Blindness’, livro que resultou de um blog criado pelo realizador para anotar as suas reflexões durante a rodagem, Meirelles afirmou ser um conjunto de textos para Internet, nunca tendo pensado na sua edição em livro, confessando estar «até constrangido de o estar a lançar aqui ao pé de um grande escritor [risos].»

O realizador, que estará em Lisboa até amanhã, dia em que viaja até à ilha do Faial para apresentar o filme no Faial Film Fest, Mostra de curtas-metragens organizada pelo Cineclube da Horta, desdobrou-se em entrevistas a diferentes canais de televisão. Aqui deixamos os links para os vídeos das entrevistas concedidas à RTP (Ver vídeo) e à SIC (Ver vídeo).

Na noite de hoje, ‘Ensaio Sobre a Cegueira’ será projectado no Freeport de Alcochete, numa sessão organizada pela distribuidora da película em Portugal, a Castello Lopes Multimédia.



publicado por blogoval às 19:23
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Domingo, 26 de Outubro de 2008
Camarate um buraco sem fim....

Freitas do Amaral, trás a lume de novo a questão não resolvida, do acidente ou atentado, em que morreram sá Carneiro e A. Amaro da Costa, isto nos idos tempos da década de 70.

Muitas investigações, muitas comissões parlamentares, muito fumo e por resolver a questão essencial. Estamos perante um crime contra o Estado. Ou, foi um mero acidente.

Freitas do Amaral, parece-me que lança umas achas para a fogueira. Sabe mais do que diz. E do que diz, revela onde está o problema.

Foi atentado. Houve assassinato de pessoas.

Fala-se da questão do tráfico de armas para a guerra Irão/Iraque, da investigação sobre o desfalque de 8 milhões de contos (à altura) de um fundo militar...

Qualquer dia... talvez na próxima década de 2010/2020... alguém lance um livro de memórias... com a verdade.



publicado por blogoval às 10:02
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Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008
Extremismos e Joerg Haider

Depois do seu rejuvenescimento politico e alcançada de novo a glória (aparente) politica, acontece a sua morte, num grave acidente automóvel.

Uma politica de extrema-direita, forte e populista cheia de muitos e mitos extremistas.

Vem a público, após a autópsia do cadaver, que este, vivo, conduzia o automóvel a 140 km/h, com uma taxa de 1.8 g/l de alcool.

Não se satisfeito com as noticias, o seu delfim, vem anunciar o desgosta da perda do seu amante, revelando o caracter homosexual da vitima.

Depois de morto e sem possibilidade de defesa, cai mais um mito.

Realmente os extremos tocam-se.



publicado por blogoval às 22:00
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«O Caderno de Saramago» - José Luis Sampedro

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José Luis Sampedro

Esta tarde ouvi falar de José Luis Sampedro, economista, escritor, e, sobretudo, sábio daquela sabedoria que não é dada pela idade, ainda que esta possa ajudar alguma coisa, mas pela reflexão como forma de vida. Perguntaram-lhe na televisão pela crise de 29, que ele viveu em criança, mas que depois estudou como catedrático. Deu respostas inteligentes que os interessados em compreender o que está ocorrendo encontrarão nos seus livros, tanto escreveu José Luis Sampedro, ou procurando a reportagem na rede, mas uma pergunta que ele próprio fez, não o jornalista, ficou-me gravada na memória. Perguntava-nos o mestre, e também a si mesmo, como se explica que tenha aparecido tão rapidamente o dinheiro para resgatar os bancos e, sem necessidade de qualificativos, se esse dinheiro teria aparecido com a mesma rapidez se tivesse sido solicitado para acudir a uma emergência em África, ou para combater a sida… Não era necessário esperar muito para intuir a resposta. À economia, sim, podemos salvá-la, mas não ao ser humano, esse que deveria ter a prioridade absoluta, fosse quem fosse, estivesse onde estivesse. José Luis Sampedro é um grande humanista, um exemplo de lucidez. O mundo, ao contrário do que às vezes se diz, não está deserto de gente merecedora, como ele, de que lhe dêmos o melhor da nossa atenção. E façamos o que ele nos diz: intervir, intervir, intervir.



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.... este post é teu.... 2 anos e 3 meses

GCxdcccccc k,,,,,,,,,,.,,,  s0

 



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Selecção Nacional mais que Estrangeira...

Querem tratar de internacionalizar umas das poucas coisas que deviam ser intocáveis.

Pelo espirito nacional, pelo respeito da pátria e do hino.

Considero que o seleccionador pode ser estrangeiro, como que uma falsa desculpa aceite.

Mas os jogadores deveriam ser sempre genuinamente lusitanos.

Cada vez mais, a atribuição da nacionalidade é um artificio administrativo e não um objecto de mudança de vida de cada um.

Portanto, vem agora a lume a atribuição da dupla nacionalidade ao jogador Liedson (SCP). Mal consiga o carimbo, Queiróz certamente irá invocar nobres questões para o convocar para o jogo com a Suécia em Março de 2009.

Condeno totalmente.



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Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008
«O Caderno de Saramago» - Têm alma os verdugos?

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Têm alma os verdugos?

Nestes últimos dias abriu o tiro ao alvo contra o juiz Garzón. Mesmo aqueles que o defendem argumentam que tem uma personalidade controversa, como se todos tivéssemos a obrigação de ser iguais ao semelhante mais próximo… O caso é que Garzón, com os seus autos singulares, é o juiz que mais alegrias tem proporcionado àqueles a quem, apesar de tudo, esperam muito da justiça ou, melhor dito, dos encarregados de administrá-la. Garzón, na sequência de queixas que lhe apresentaram,  interveio num assunto que é maior que ele e que todas as instituições judiciais juntas: a guerra civil espanhola, a ilegalidade do franquismo, a dignidade dos que defenderam a República e um modo de viver a vida. Ele sabe que talvez tenha de abandonar o campo, mas as portas já estão abertas para que se reconheçam verdades, junto a identificações, e inclusive, por fim, enterros. A transição espanhola, uma época vivida sobre o possível, não é uma carta de corso: a esquerda cedeu porque os militares e o franquismo social estavam apontando, mas não se rendeu, não disse “esta palavra é definitiva”, simplesmente esperou que chegasse o dia de contar os seus mortos e chamar as coisas pelo seu nome. Garzón ajudou com a sua posição, e nunca alegria maior foi sentida pelas vítimas daquela guerra, pelos que conseguiram sobreviver até hoje.

O juiz Garzón não é um sectário. Entende que nada humano lhe é alheio e entra nos assuntos que considera delitivos e porque para isso tem autoridade. Também se pergunta se os verdugos têm alma, sinal mais do que suficiente para compreender que analisa desde as duas margens. Há uns meses pediu-me um prólogo para um trabalho que havia realizado com o jornalista Vicente Romero. Era, repito, uma investigação sobre o comportamento dos verdugos. Recomendo vivamente a leitura deste livro – El alma de los verdugos, ed. RBA – e, enquanto não o têm  nas vossas mãos, deixo-vos estas linhas que, à maneira de prólogo, escrevi para Baltasar Garzón e Vicente Romero.

 

Têm alma os verdugos?

Uma alma que fosse posssível considerar responsável por todo e qualquer acto cometido teria de levar-nos, forçosamente, a reconhecer a total inocência do corpo, reduzido a ser o instrumento passivo de uma vontade, de um querer, de um desejar não especificamente localizáveis nesse mesmo corpo. A mão, em estado de repouso, com os seus ossos, nervos e tendões, está pronta para cumprir no instante seguinte a ordem que lhe for dada e de que em si mesma não é responsável, seja para oferecer uma flor ou para apagar um cigarro na pele de alguém. Por outro lado, atribuir, a priori, a responsabilidade de todas as nossas acções a uma identidade imaterial, a alma, que, através  da consciência, seria, ao mesmo tempo, juiz dessas acções, conduzir-nos-ia a um círculo vicioso em que a sentença final teria de ser a inimputabilidade. Sim, admitamos que a alma é responsável, porém, onde é que está a alma para que possamos pôr-lhe as algemas e levá-la ao tribunal? Sim, está demonstrado que o martelo que destroçou o crânio desta pessoa foi manejado por esta mão, contudo, se a mão que matou fosse a mesma que, tão inconsciente de uma coisa como da outra, tivesse simplesmente oferecido uma flor, como poderíamos incriminá-la? A flor absolve o martelo?

Ficou dito acima que a vontade, o querer, o desejar (sinónimos que, apesar de o não serem efectivamente, não podem viver separados) não são especificamente localizáveis no corpo. É certo. Ninguém pode afirmar, por exemplo, que a vontade esteja alojada entre os dedos médio e indicador de uma mão neste momento ocupada a estrangular alguém com a ajuda da sua colega do lado esquerdo. No entanto, todos intuímos que se a vontade tem casa própria, e deverá tê-la, ela só poderá ser o cérebro, esse complexo universo cujo funcionamento, em grande parte (o córtex cerebral tem cerca de cinco milímetros de espessura e contém 70 mil milhões de células nervosas dispostas em seis  camadas ligadas entre si) se encontra ainda por estudar. Somos o cérebro que em cada momento tivermos, e esta é a única verdade essencial que podemos enunciar sobre nós próprios. Que é, então, a vontade? É algo material? Não concebo, não o concebe ninguém, com que espécie de argumentos seria defensável uma alegada materialidade da vontade sem a apresentação de uma “amostra material” dessa mesma materialidade…

O voluntarismo, como é geralmente conhecido, é a teoria que sustenta que a vontade é o fundamento do ser, o princípio da acção ou, também, a função essencial da vida animal. No aristotelismo e no estoicismo da antiguidade clássica observam-se já tendências voluntaristas. Na filosofia contemporânea são voluntaristas Schopenhauer (a vontade como essência do mundo, mais além da representação cognoscitiva) e Nietzsche (a vontade de poder como princípio da vida ascendente). Isto é sério e, por todas as evidências, necessitaria aqui alguém, não quem estas linhas está escrevendo, capaz de relacionar aquelas e outras reflexões filosóficas sobre a vontade com o conteúdo deste livro, cujo título é, não o esqueçamos, A Alma dos Verdugos. Aqui talvez tivesse eu de deter-me se, felizmente para os meus brios, não me tivesse saltado aos olhos, folheando com mão distraída um modesto dicionário, a seguinte definição: “Vontade: Capacidade de determinação para fazer ou não fazer algo. Nela se radica a liberdade”. Como se vê, nada mais claro: pela vontade posso determinar-me a fazer ou não fazer algo, pela liberdade sou livre para determinar-me num sentido ou noutro. Habituados como estamos pela linguagem a considerar vontade e liberdade como conceitos em si mesmos positivos, apercebemo-nos de súbito, com um instintivo temor, que as cintilantes medalhas a que chamamos liberdade e vontade podem exibir do outro lado a sua absoluta e total negação. Foi usando da sua liberdade (por mais chocante que nos pareça a utilização da palavra neste contexto) que o general Videla viria a tornar-se, por vontade própria, insisto, por vontade própria, num dos mais detestáveis protagonistas da sangrenta e pelos vistos infinita história da tortura e do assassinato no mundo. Foi igualmente usando da sua vontade e da sua liberdade que os verdugos argentinos cometeram o seu infame trabalho. Quiseram fazê-lo  e fizeram-no. Nenhum perdão é portanto possível. Nenhuma reconciliação nacional ou particular.

Importa pouco saber se têm alma. Aliás, desse assunto deverá estar informado, melhor do que ninguém, o sacerdote católico argentino Christian von Vernich que há alguns meses foi condenado a prisão perpétua por genocídio. Seis assassinatos, torturas a 34 pessoas e sequestro ilegal em 42 casos, eis a sua folha de serviços. É até possível, permita-se-me a trágica ironia, que tenha alguma vez dado a extrema unção a uma das suas vítimas…



publicado por blogoval às 18:57
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