A Incerteza do movimento de uma bola Oval "¿Qué clase de mundo es éste que puede mandar máquinas a Marte y no hace nada para detener el asesinato de un ser humano?" José Saramago
Sábado, 31 de Outubro de 2009
Manowar «Heart of Stell» 1999 Lisboa

 

10 anos de sangue, suor e lágrimas

 

haill haill haill

 

 



publicado por blogoval às 19:18
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Saramago - Assunto do futuro livro

Lisboa, 30 Out (Lusa) -- O escritor José Saramago revelou, hoje, que já está a escrever um novo romance, que tem como ponto de partida a seguinte pergunta: "Porque é que nunca houve uma greve numa fábrica de armas?".



publicado por blogoval às 16:22
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Saramago no Expresso 30/10/2009
Saramago: "Não procurem os hematomas, tenho a pele bastante dura"
O prémio Nobel classificou a polémica à volta do novo romance "Caim" como "uma espécie de fartar-vilanagem", mas garante que resistirá a todas as "canalhadas" que se façam à volta do livro e da sua pessoa.

O escritor José Saramago , muito criticado por afirmar que a Bíblia é "um manual de maus costumes", iniciou hoje, em Lisboa, a apresentação do seu novo romance, " Caim ", dizendo: "Não procurem os hematomas, tenho a pele bastante dura".

Recebido ao fim da tarde com sala cheia, no grande auditório da Culturgest, de pé e com palmas, o Prémio Nobel da Literatura 1998 sublinhou ser essa a única referência que faria sobre "a suposta polémica que surgiu no dia em que foi lançado o livro (em Penafiel, a 18 de Outubro), centrado na figura bíblica de Caim, que assassina o irmão, Abel.

Tal polémica, segundo o escritor, foi desencadeada "a mando da Igreja Católica e com a execução dos seus homens de mão, ou jornalistas de mão, ou outros que se guiam por interesses pessoais ou rancores pessoais", mas não afastou os leitores, "que não se deixaram intimidar pelo arraial".

Vendas ultrapassam 70 mil

"Venderam-se mais de 70 mil exemplares em pouco mais de 10 dias", sublinhou Saramago, acrescentando: "Da Bíblia, parece que se venderam uns exemplares mais e eu congratulo-me, porque as pessoas que não a tinham lido podem agora confirmar a justeza das minhas observações".

A acusação de que faz "uma leitura literal da Bíblia", o autor de "Caim" respondeu, com veemência: "Eu não podia fazer uma leitura simbólica, não sou teólogo - Deus me livre!".

Além disso - prosseguiu - "se fizesse uma leitura simbólica, como a faria? Há muitas! (...) Que bom ser ingénuo, que bom não ser cínico... Tomei à letra o que na letra está".

Depois, instou a Igreja, os teólogos e os padres a "colocarem ao pé de cada leitor da Bíblia alguém que a interprete" ou, em alternativa, sugeriu: "Porque é que vocês não imprimem tirinhas de papel para pôr na Bíblia, para que as pessoas leiam aquilo que vocês querem?".


Embora ateu, Saramago considera Caim "um velho amigo", cuja história leu há várias décadas e lhe ficou na memória, por crer que ele foi vítima de um Deus injusto, que o maltratou e humilhou, o que o terá levado a matar o irmão, quando quem queria matar era Deus.

O "melhor" de sempre

Escreveu o romance em quatro meses e considera-o "do melhor" que produziu, "em todos os aspectos", inclusive "no uso de uma linguagem que não é nova" - "que tem andado sempre comigo", observou - mas que "estava esquecida".

Reiterando que não queria falar da polémica, que classificou como "uma espécie de fartar-vilanagem", José Saramago disse que ela nem sequer lhe "tocou a pele" e que resistirá "a todas as canalhadas que se façam à volta do livro" e da sua pessoa.

"Porque, sem querer parecer vaidoso, estou acima de tudo quanto digam de mim. Não estou acima de tudo o que digam de bem de mim. Isso recebo com alegria, com gratidão", frisou.
 



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Carl Orff «Carmina Burana»

 

 



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Amon Amarth - The Pursuit of Vikings

 

 



publicado por blogoval às 16:09
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Pilar del Rio ao DN 29/10/2009

 

29/10/09

 

 

De imediato, uma parte da sociedade começou a falar de Deus e da Bíblia, corrente de ar fresco que se agradece se tivermos em conta o teor de outras polémicas, mas ninguém assinalou o que do meu ponto de vista é essencial neste livro: que o género humano não é de fiar. Sim, os seres racionais, os que levantam edifícios, constroem pontes e compõe sinfonias, esses mesmos que declaram guerras por um território, por um capricho, por uma bandeira ou por um Deus nasceram loucos e loucos continuam a viver tantos milénios depois de Adão e Eva ou do Big Bang, chame-lhe cada um o que queira. Só a gente sem sentido se pode atribuir a autoria das fábulas religiosas que povoam a terra até aos dias de hoje, porque todas as civilizações se organizam em volta de uma divindade e todas elas se baseiam no sacrifício e no sangue. Se é verdade que em Creta o ritual levava donzelas virgens ao minotauro, e que as civilizações pré-colombinas realizavam sacrifícios humanos para aplacar a ira dos deuses, como tantos povos africanos, o ranking da exigência sacrificial é ganho pela religião que apresenta o seu próprio Deus executado numa cruz após ter padecido terríveis torturas que o levaram até a suar sangue.

Que atracção mórbida têm os homens para inventar, ao longo dos tempos, religiões terríveis a que logo se escravizam? Que paixão aturdiu a humanidade levando-a a impor-se a si mesma códigos e proibições canalhas, ameaçar-se com fogos eternos, condenar-se absurdamente por toda a vida, centrar a existência em tabus alheios ao sentido comum e fazer de normas desumanas guias de conduta e de condenação? Sim: os chamados seres racionais estão loucos, por isso talvez não mereçam a existência. Essa é, em meu entender, a síntese do romance de Saramago, uma perplexidade que se afirmou em cada leitura: Não somos de fiar, Caim tinha razão ao executar o seu plano se nós seres humanos somos tão crueis, tão maus, tão aborrecíveis, que quando queremos inventar um ser superior temos que o carregar de sangue, ódio, morte, renúncia, sacrifício. O rancor do Deus da bíblia é o rancor que os humanos inventaram, dado que foram os seres humanos que propuseram as diferentes figuras divinas. E a crueldade, a velhacaria, o ardor guerreiro e o espírito de vingança são construções humanas a que se deu corpo legal e religioso para, de seguida, submeter-se com uma ligeireza insuportável. “Escravos de um Deus fictício” escreveu alguém, e é verdade: seja no Islão, nas religiões africanas ou ameríndias, no judaísmo, no cristianismo nas suas distintas variantes ou noutras confissões, em todas estão os códigos e o pecado. Numas impõem burkas, noutras proíbem fazer amor sem passar por um altar, e lapidam na vida terrena ou condenam à eternidade se se tratam com uma transfusão ou se investigam com células-mãe. E todas estão convencidas da sua excelência, da sua legítima capacidade para condenar, por exemplo, os homossexuais - todas as religiões têm uma fixação com o sexo, o que demonstra quão humanas são - e todas se sabem e sentem superiores. Nenhuma vê ridículos e fátuos os seus rituais, embora não entenda os dos vizinhos, são bárbaros uns para os outros, nunca amigos, nunca próximos: no universo religioso é onde mais claramente fica demonstrado que os humanos ao longo da sua passagem pelo mundo procuraram sempre motivos para o confronto e que, como ficou dito, a religião é um dos maiores, a par da bandeira e do território, três grandes falácias para dividir uma mesma espécie. Três grandes fraudes.

Deus é de fiar? Deus não existe fora das cabeças dos homens, logo são os homens os que não são de fiar, nem eles nem as suas obras. Filhos de dogmas e preconceitos, herdeiros de tradições sem sentido, de superstições e de medos, os homens não souberam aproveitar a modernidade para combater o descaramento do irracional. Inclusivé, o homem ocidental, o que se crê centro do mundo e dono dos melhores conceitos, revolve-se intranquilo se alguém, como Saramago, e não só, questiona supostas verdades reveladas. Isso sim, defende a sua interpretação com ar de superioridade, partindo da certeza de saber-se melhor que outros, que condenam com a fatwa, apenas porque há dois séculos que no Ocidente se acabaram os julgamentos da Inquisição e os anátemas não são queimados na praça pública. Barbárie que continua a existir noutros lugares do mundo, também humanos, estados teocráticos, onde povos vivem oprimidos por leis atribuídas a Deus, por lendas e contos escritos, uns após outros, por homens sem misericórida, com o mesmo afã dominador e predador.

O romance de Saramago não é contra Deus. Lamento contrariar os que assim pensam. Saramago, na sua ficção, volta a escrever um ensaio sobre a cegueira. A humana cegueira que, para além de impedir a visão, impede que haja claridade no mundo, que este planeta perdido no universo seja um lugar sem luz e sem outros belos dons que nos fariam mais livres e felizes. Os homens inventaram Deus e agora parece que esperam que o mesmo Deus os salve porque, enfrentando-se entre eles e com os seus medos, não são capazes de desmontar esta rede de artifícios e dizer “já chega” de escravidão e estultícia. Sigamos então por caminhos marcados por lendas, com interpretações simbólicas ou não, mas tenhamos ao menos a decência de atribuir-nos a sua autoria: a de havermos criado a divindade e toda a dor e sacrifício que os deuses supostamente impuseram ao mundo. À imagem e semelhança do ser humano.

Pilar del Río

Jornalista

Artigo publicado no Diário de Notícias a 29 de Outubro de 2009 

Pilar del Río

Li várias vezes, traduzi-o inclusivé para castelhano, o último romance de José Saramago “Caim”, uma fábula humana, tão humana que pensei que iria provocar perguntas humanas. Para minha surpresa, tal não ocorreu.



publicado por blogoval às 16:07
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Processo «Face Oculta»

Antes de mais, o nome do processo. Parece o estilo de nomes que o americanos dão aos furacões que chegam à sua costa. Porque é que a PJ, ou outra entidade, não dá um n.º ao caso, tipo AJ102254/2009.

Assim saberíamos que o autor, juíz ou não, AJ tinha em seu poder no ano 2009, 102.254 processos... epá... tantos....

O caso.

A prova evidente do denso nevoeiro que enche este país.

Inumeras empresas, micro, pequenas, médias, grandes ou enormissímas, são geridas numa teia de contactos e cumplicidades.

A deste caso, envolve uma empresa, com contactos de nomeada em empresas estratégicas e internacionalizadas do nosso país.

Depois, existe um empresário que gratifica, corrompe, ou outro qualquer termo, quadros dessas empresas. O mais sonante, para além dos que apresentam o apelido Penedos, é o do Armando Vara, alto quadro do PS, e segundo se diz «tachista».

O Banco de Portugal, na pessoa do seu presidente, escaldado com o que se passou no BPN, BPP e BCP, já mandou averiguar sobre a conduta moral e profissional do homem do PS enquanto banqueiro. Não vá ser verdade, a fábula do envelope com 10.000 euros em notas... e com urgência...



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Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
Mário Crespo ao Jornal de Noticias
Saramago

 

26/10/2009

 

A conversa de Carreira das Neves com Saramago foi um hino à excelência, ao civismo e à educação.

O debate tinha chegado ao fim. Dois sábios tinham arguido os seus pontos de vista tão opostos como o fogo e a água. “a Pilar, como se dissesse água”. Tinham brandido naipes de conceitos que buscam há décadas em abismos de milénios profundos. E jogaram-nos em palavras de infinita precisão. Mais de 70 anos de um lado. Mais de 80 do outro: - Não tenho 87. Tenho 86. Diz um grito de rispidez de quem sabe que doze meses de vida são 365 milhões de eternidades. Ou 366. “a Pilar, que não deixou que eu morresse”. “Também eu estive muito doente, de resto só esta semana é que voltei a dar aulas” disse o outro. Falaram de Deus e de deus com a eloquência dos conhecedores que já tinham pressentido os fins de tudo e tinham regressado mais um bocadinho. “a Pilar, os dias todos”. Falaram da Palavra que ficou repetida em mil livros e mil línguas. ”a Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar”. Falaram da palavra que ficou e da que foi perdida. Da palavra do senhor que não se ouviu e da do Senhor que foi inventada. Falaram do princípio dos tempos que os dois procuram como nómadas por desertos ouvindo os murmúrios divinos que ambos julgam escutar. Um, os silêncios. O outro, os cânticos. Discutiram tudo isto com um reluzente brilhantismo apaixonado. Falaram sempre com uma afagante cordialidade que contagiou. Que enterneceu. Que foi solene. Que foi importante. Um apelo no fim. “Que a Declaração Universal dos Direitos do Homem inclua o direito à dissidência. E o direito à Heresia. “Oh homem, você não pode ser herege, não precisa disso se não acredita. Eu sim. Se escrevesse isso seria herege”. Disse, defendendo as imagens e interpretações que vão adaptando o bem e o mal divino à vontade humana. “Mas quem é que vos deu o direito para alterar…para interpretar a Bíblia”. E acabou. Infelizmente. Carreira das Neves o Catedrático franciscano foi o primeiro a levantar-se e a chegar-se a Saramago (ainda sentado) e num longo afago mascarado de aperto de mão prometeu uma ida a Lanzarote. “Qualquer dia”. “Isso enchia-me de felicidade” Disse Saramago abrindo mais um sorriso delimitando infinitos pactos de entendimento numa arca de alianças eternas dos homens de boa vontade. Eu fiquei aos 62 anos subitamente cheio de vontade de chorar e de gratidão. Porque vivo no país de Saramago que tem como pátria a minha língua. Porque viajo com ele em jangadas de pedra que cruzam atlânticos e em passarolas que passam por cima da profunda maldade dos banais. Porque saltito pelas cortes de reis passados e impérios futuros montado no elefante mágico que ele nos deu para impressionarmos o universo. Porque sou também da pátria dele e sei que ele há-de viver por muitos anos nas ruas da minha cidade e ocasionalmente eu posso cruzar-me com ele, como a Joana Latino, minha colega, disse que gostava de fazer quando o entrevistou em Lanzarote. Porque ele vai continuar a ajudar-me a entender mais mundos que ainda não foram descobertos e que ele já conhece, porque viveu sempre na terra de amanhã onde eu nunca entrei. E que mos vai dando um a um. E eu fico mais rico. Porque ele vai continuar a começar os seus livros com dedicatórias encantadas com os hinos à vida de infinita beleza que só ele sabe compor. “a Pilar, a minha casa”. Porque “sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo” como disse Ricardo Reis no ano da sua morte. Porque só há um país no mundo inteiro que tem um José Saramago e é o meu país. E o dele. Graças a Deus.

Mário Crespo,

in Jornal de Notícias, publicado a 26 de Outubro de 2009 



publicado por blogoval às 21:29
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José Saramago e José Tolentino de Mendonça ao Expresso

José Saramago (JS) - Eu chamei "livro dos disparates" não à Bíblia, mas a um versículo de uma carta aos hebreus, que está na contracapa e que também serve de epígrafe ao livro. Em toda a Bíblia, depois do assassinato de Abel, não se volta a falar de Caim. Não se sabe porquê, nessa carta aos hebreus há uma referência a Caim e que é completamente absurda e que me permiti chamar-lhe disparate. "Pela fé" - só estas duas palavras dariam para uma larga discussão. "Pela fé, Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé, Deus considerou-o seu amigo, etc..". Há alguém capaz de me explicar, em termos racionais e humanos, para que a gente entenda, o que isto quer dizer? É absolutamente incrível!

José Tolentino de Mendonça (JTM)- A tradição, durante séculos, colocou-a no interior das cartas paulinas. Sabe-se, agora, que é de um autor posterior a São Paulo, embora seja um texto do Novo Testamento e com uma teologia admirável.

JS - A teologia admirável atreveu-se a dizer coisas tão impossíveis de aceitar como afirmar que Deus considerou Abel seu amigo. O que é isto? Estamos a jogar com as palavras? Como é que sabemos isso? Quem é que registou? Quando? Como? Onde? Abel e Caim sacrificaram a Deus o que tinham. O pobre Caim, se me permitem que chame pobre a um assassino, ofereceu também o que tinha. Deus desprezou o sacrifício de Caim. Aí, começa tudo: o ciúme nasceu aí, o rancor, a incompreensão, porque Caim não percebe que Deus o rejeite. Isto é um disparate lógico, o que me leva a dizer que este texto faria boa figura num livro de disparates. Mas não chamo à Bíblia um livro de disparates.

JTM - Não encaro esta conversa como um duelo ou sequer como um confronto. Este é um território onde a humildade é extraordinariamente necessária. No fundo, o não-crente e o crente têm ambos as mãos vazias, ainda que de forma diferente. Ambos são buscadores, procuradores. A fé nasce de uma interrogação, de uma abertura à revelação de Deus e do irmão. Tenho o maior apreço pela pessoa de José Saramago e pelo seu trabalho. Um grande criador é um dom extraordinário. E todos, de alguma forma, somos devedores a essa arte humaníssima, artesanal, extraordinariamente solitária e funda, que é a arte de um contador de histórias, de um escritor. Tenho o maior respeito, também, pelo interesse que José Saramago manifesta pelo texto bíblico. É, sem dúvida, dos autores portugueses, dos que mais se interessa, mais convive e mais procura o texto bíblico. Às vezes de uma forma consciente, num confronto e numa luta corpo-a-corpo, como no caso do "Evangelho Segundo Jesus Cristo", ou, agora, em "Caim", onde há luta forte com o texto bíblico. Outras vezes de forma implícita. E às vezes num certo tom, no seu português maravilhoso e inesquecível, que até tem um tom e uma respiração bíblicas, no sentido de um certo tom cosmogónico que, por vezes, a sua narrativa tem.

Há duas coisas que é preciso distinguir. Uma, é a obra literária, que agora foi lançada; outra, é o hipertexto: aquelas declarações de José Saramago em Penafiel, no lançamento do livro, e que acabaram por criar um acontecimento mediático. Sobre isso, algumas pessoas da Igreja e de outras confissões religiosas manifestaram-se, com toda a legitimidade, porque vivemos numa sociedade aberta e de liberdade. São leituras de uma declaração muito virulenta de José Saramago em relação à Bíblia e ao fenómeno religioso. Foi uma declaração nada consensual, e por isso são mais que expectáveis as reacções. Atacar a Bíblia desta maneira, tratá-la como uma coisa que podemos dispensar, e as palavras, com a gravidade com que foram ditas, é alguma coisa que nos enche de perplexidade. Porque a Bíblia é um livro de fé. É inegável que ao longo de séculos tem sido uma fonte de bem, uma fonte de ânimo na aventura humana e uma fonte de criatividade espantosa. A Bíblia é também um grande código da nossa civilização. Claro que podemos criticar esse código, mas um grande homem de cultura, mesmo agnóstico ou ateu, por amor a Bach, por amor a Mozart, a John Steinbeck, a O'Connor, a Faulkner, a Ruy Belo, a Maria Gabriela Llansol, a José Saramago, tem de ter este livro em sua casa.

JS - Eu não preciso de ter, porque em minha casa tenho sete ou oito exemplares. Desde uma Bíblia espanhola do século XVII ou XVIII, até uma Bíblia que me foi oferecida numa Feira do Livro, há três ou quatro anos, em português corrente. Até posso estar de acordo consigo quando diz que na minha prosa e estilo há uma ressonância, uma música que pode ser relacionado com a música, o ritmo, o sentido da pausa, o sentido expositivo, que se encontra na Bíblia. Não nego. Outra das minhas grandes influências, já o disse, é o padre António Vieira, cujos sermões li e reli - algumas vezes terei treslido... Mas acho que terá sido necessário um grande esforço para converter a Bíblia num livro de fé.

JTM - Mas a Bíblia é uma biblioteca. Tem muitos livros. Acha que foi difícil tornar um livro de fé o livro do profeta Isaías?

JS - Não! Como não acho impossível o livro de Job.

JTM - Ou os Salmos. Ou os Livros da Sabedoria ou das Origens.

JS - Tudo isso é certo. Mas ponha-se agora, por um ou dois minutos, no meu lugar. Tomar o Caim como personagem central de uma história não tem nada de gratuito. A questão do Caim é uma velha questão que eu tenho com a Bíblia.

JTM - Mas leu alguns comentários sobre a figura de Caim? Para mim, como exegeta, um dos textos mais admiráveis sobre Caim é o texto de Paul Ricoeur, que faz uma interpretação que, penso, o próprio Saramago achará extraordinária. Ele lê o episódio de Abel e Caim como a história e a construção da fraternidade. O Génesis é uma meditação sapiencial sobre a condição humana. O que são, afinal, os mitos? São meditações sobre a vida. Os autores bíblicos são contadores de histórias, que repassam a vida com um olhar crente, se quisermos. Depois da Bíblia, a fraternidade já não está dependente dos laços do sangue, mas de uma decisão ética. Eu não sou irmão do outro simplesmente porque sou do seu sangue; sou irmão dele se escolher ser seu irmão.

JS - Isso é forçar um pouco as histórias... O que teria acontecido se Deus tivesse aceite o sacrifício de Caim, como aceitou o de Abel? Porque é que Deus recusou o sacrifício de Caim? Esta pergunta não tem resposta.

JTM - As grandes experiências humanas são experiências de escolha com a qual temos de lidar. Veja: porque ama a Pilar e não uma outra mulher?

JS - Eu cá sei!

JTM - Sabe, mas o amor é um lugar sem resposta, sem lógica.

JS - A literatura e a lógica não são incompatíveis!

JTM - Não são incompatíveis, mas não é uma lógica matemática.

JS - É absurdo que Deus tenha recusado o sacrifício de Caim. Não há palavras, não há exegeses ou leituras simbólicas que o justifiquem. Temos aí um obstáculo sério: é que não podemos fazer perguntas aos redactores da Bíblia. Gostaria de saber quais eram as intenções do autor.

JTM - Mas há um sentido imanente no texto.

JS - A Bíblia está traduzida em quase todas as línguas.

JTM - Mas a exegese é feita sobre os textos originais. Eu trabalho sobre o hebraico e sobre o grego.

JS - Textos originais sobre os quais eu não sei nada.

JTM - Não sabe porque não tem investigado.

JS - Não! Simplesmente porque a minha vida é outra.

JTM - Todo o texto bíblico tem em si um densidade inesgotável. É um livro que nunca se acaba de ler. Depois de mil leituras, o texto vence sempre. Este texto é muito importante. Como a carta aos hebreus, que acho injusto que lhe chame "livro dos disparates".

JS - Tenha paciência: eu não lhe chamei isso. O que eu digo, e repito, é que este texto concreto, tal como está redigido, merecia ser incluído num livro dos disparates universais. Esta frase, qualquer pessoa achará que é uma frase completamente disparatada.

JTM - Mas a fé é um paradoxo. Eu não diria um disparate. Querer tratar Deus com lógica é chegar a um beco sem saída.

JS - Então se o beco não tem saída, voltemos para trás.

JTM - Mas acha que pode entender a condição humana eliminando o paradoxo?

JS - Não, não.

JTM - Acha que as grandes emoções, as grandes janelas interiores que o homem traz se justificam apenas pela lógica?

JS - Mas os meus livros estão cheios disso. A questão é que eu não escrevi nenhum livro sagrado! Esse é o problema.

JTM - Sabe que numa sociedade secularizada o José Saramago é uma espécie de referência sagrada. Um homem que vende 200 mil exemplares e tem uma cobertura global... Hoje, o sagrado tem outras formas. E, no fundo, a sua pretensão é também uma pretensão sagrada.

JS - É possível. Aliás, uma das minhas frases preferidas é que "para fazer um ateu como eu, é necessário um altíssimo grau de religiosidade".

JTM - Sem dúvida!

JS - Como é uma frase minha, o que o teólogo Juan José Tamayo escreveu recentemente no diário "El País": "Deus é o silêncio do universo, e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio". Eu não sou o tipo de ateu ferrabrás, armado de um chuço para deitar abaixo aquilo que eu não posso deitar abaixo, que é a crença, a fé, na qual eu não toco - na condição que não façam afirmações tão ilógicas como esta.

JTM - Mas podíamos tirar qualquer afirmação de um dos seus livros e colocá-la no livro dos paradoxos universais.

JS - Não me importaria nada. Mas ficaria muito desgostoso se incluíssem uma frase minha no livro dos disparates. A Igreja insiste em que há que fazer uma leitura simbólica dos textos bíblicos. Os crentes e leitores da Bíblia estão instruídos, educados, treinados, manipulados para aceitar aquilo que...

JTM - Porque diz manipulados?

JS - Porque é assim. A palavra é essa. Quer outra palavra? Eu dou-lha.

JTM - É muito importante perceber que os cristãos são criados por liberdade, por amor à liberdade.

JS - À liberdade? Mas o que é que a história da Igreja, e do catolicismo em particular, tem que ver com a liberdade?

JTM - Tem tudo a ver com a liberdade.

JS - Ai sim? Curioso!

JTM - Foi para a liberdade que Cristo nos libertou, afirmou um homem como Paulo de Tarso.

JS - Deixe Cristo em paz!

JTM - Mas esse é o seu erro de base. Deixe-me falar, para voltar à história de Caim e Abel. A Bíblia, precisamente para ilustrar a liberdade, coloca a escolha dos filhos mais novos - Abel, mas também uma galeria imensa de filhos mais novos, que são os preferidos em relação ao poder estabelecido socialmente pelo mais velho. Todo o direito e a lei estão do lado do mais velho. E, contudo, Deus escolhe o mais pequeno. Deus escolhe o último, a vítima, aquele que não tem voz nem vez, o que não é protagonista da História, para ser protagonista de uma história. Tudo isto é uma convulsão social. A Bíblia é um texto inquieto. Se escrutarmos a Bíblia a partir de um raciocínio lógico, claro que vamos encontrar imensos nós cegos, coisas sem resposta. Mas a nossa vida é assim. A história de Abel e Caim é a história desta inquietação sem resposta que a experiência do mal e do bem é na nossa vida. Não é verdade que na Bíblia nunca mais se volte a falar de Abel. Jesus identifica-se muito com a figura de Abel. A Bíblia identifica-se com a figura daqueles que na história são as vítimas. Por isso, dizer que a Bíblia é uma espécie de livro que reúne toda a crueldade do mundo, é dizer uma coisa ao lado do que verdadeiramente é. No seu espírito profundo, a Bíblia é um manual de liberdade, um livro de perguntas. Por muito que lhe custe, José Saramago, quero dizer-lhe que o cristianismo é uma aventura de liberdade.

JS - A mim, o que me vale, meu caro Tolentino, é que já não há fogueiras em São Domingos.

JTM - Não vamos falar das fogueiras, porque infelizmente o fumo das fogueiras enche a história de todos os tempos. Nós estamos aqui, dois homens, a falar no século XXI. E é com a verdade do que vivemos e fazemos que nos temos de encontrar. Aqueles que pensam que são isentos do mal é que me metem medo!

JS - O cristianismo uma aventura de liberdade!? Dizer isso com os albigenses, as cruzadas, o santo ofício, as masmorras da inquisição, as fogueiras a arder e tudo isso...

JTM - Esquece que no tempo da Inquisição havia santos. Nos tempos dos albigenses e das masmorras não deixou o cristianismo de ser uma história de liberdade e humanidade. Você tem uma visão parcial do cristianismo!

JS - Não tenho.

JTM - Como leu o facto do papa João Paulo II ter pedido perdão...

JS - Não sou leitor do papa João Paulo II!

JTM - Não, mas soube, concerteza. Não pode escapar a esta questão. Porque lhe custa reconhecer que um Papa pode ter um gesto humanamente admirável? Porque lhe custa? Não cai do pedestal.

JS - Pontualmente não me custará nada reconhecer algo que de bom, de perfeito, de belo, Papa A, B, C ou D tenha feito.

JTM - Mas então diga o que achou do Papa João Paulo II ter pedido perdão pelos crimes e erros do passado, feitos em nome do cristianismo e da fé? O que acha desse gesto?

JS - Até agora, que eu saiba, deixaram no rol do esquecimento, por exemplo, uma figura como o Giordano Bruno. Porquê? Perdoou mais ou menos a Galileu. Mas Giordano Bruno foi levado à fogueira com um pedaço de madeira fixado na boca.

JTM - Mas o Giordano Bruno era um crente!

JS - É isso que a Igreja não suporta: quer crentes, sim, mas disciplinados.

JTM - Não é verdade. Dentro do Cristianismo, há muitos cristianismos.

JS - O rebanho que vai a Fátima é o que a Igreja quer!

JTM - Não sejamos generalistas, porque entre os milhares de pessoas que vão a Fátima há-de haver quem vá com um espírito de sinceridade e liberdade que nós nunca teremos. Não julguemos!

JS - Não perca tempo a dizer isso, porque eu sei que isso é assim, e respeito a crença e a fé.

JTM - A fé dos simples.

JS - Eu não toco nisso. O meu objectivo é outro: a Igreja como instituição de domínio, como poder, como castradora de algumas das virtudes naturais do homem.

JTM - Mas essa é uma posição, um olhar demasiado ideológico. A igreja não é assim!

JS - Mas porquê demasiado ideológico? Eu sou o único que tem ideologia? Você não tem?

JTM - Tenho! Tenho a ideologia e a pretensão cristã.

JS - Então por que se fala da minha?

JTM - Eu não o acuso de dominador ou de senhor do mundo.

JS - Mas eu também não o acuso a si. Mas posso acusar a instituição a que pertence.

JTM - Mas em que bases?

JS - A história do papado é algo de terrível, de simplesmente tenebroso. E você sabe-o perfeitamente.

JTM - O terrível da história, a experiência do mal e da ferida, está em todas as vidas. Não há nenhuma isenta. Não há vidas e instituições que não tenham sombra. Essa ideia que é preciso um manipulador por trás para se entender a Bíblia é uma ideia peregrina.

JS - Quando o manipulador não está imediatamente por trás, está um pouco mais atrás e mais atrás - mas está lá. Garanto que está.

JTM - Mas donde lhe vem essa desconfiança?

JS - Da história, da realidade, dos factos. Não lhe parece que vivemos numa sociedade altamente manipulada?

JTM - Eu acho que sim e que um espaço de liberdade é precisamente a complexidade dos textos fundadores, entre os quais se conta a Bíblia, que é um manifesto contra esta sociedade da manipulação.

JS - Mas ajudou muito.

JTM - As ajudas podem ser involuntárias. Não podemos culpar a Bíblia das leituras erróneas.

JS - Mas que ideia é a vossa de que eu culpo a Bíblia!?

JTM - São palavras suas! Voltou a ler as palavras que disse em Penafiel?

JS - Eu tenho um livro na mão, e é um livro cheio de violência, de carnificinas, incestos. Um manual de...

JTM - Mas toda a literatura é isso. Podemos dizer isso das obras completas de Shakespeare, ou das obras completas de Saramago.

JS - E o que é que eu resolvo com essa justificação?

JTM - A vida é literatura e a Bíblia usa aquilo que é próprio da literatura para fazer uma leitura crente da condição humana. Porque poucos lugares há, para além da literatura, capazes de espelhar a condição humana na sua inteireza. A Bíblia não é um código de direito, nem um livro de lógica.

JS - Mas foi-o. E sem esquecer o Deuterónimo!

JTM - Eu não percebo esse seu... Há um poema da Adília Lopes que dia que "a literatura não é um ajuste de contas, é um ajuste de cantos".

JS - Desculpe: esse verso é muito interessante, mas é um simples jogo de palavras.

JTM - Acha que a poesia é um simples jogo de palavras?

JS - Não torça aquilo que eu disse.

JTM - Estes versos são só um jogo de palavras?

JS - Não lhe permito que tire essa conclusão. O dístico que acabou de citar é um jogo de palavras. Que nós, escritores, fazemos muito, e muitas vezes com a má consciência de que não significa grande coisa, mas que soa bem e é bonito. Há pouco, disse que Deus está do lado da vítima. Efectivamente, Abel é uma vítima do irmão. E Caim, não é vítima de ninguém?

JTM - Todos somos vítimas.

JS - Que nós, simples humanos, sejamos vítimas e carrascos uns dos outros, muito bem. Agora, que Caim seja vítima de Deus, não há lógica no mundo, nem exegese, que o justifique.

JTM - Porque diz que Caim é vítima de Deus e não compreende que é uma leitura sapiencial que o livro do Génesis faz?

JS - O que é isso de uma leitura sapiencial?

JTM - A Bíblia é um teatro de Deus, uma reflexão sobre Deus.

JS - Um teatro de Deus? O que é que vocês sabem de Deus?

JTM - Nós sabemos de Deus o que Jesus de Nazaré nos revelou acerca de Deus!

JS - Não misturemos alhos com bugalhos. Não vale a pena! Repare nisto: antes da criação do universo, Deus, que se saiba, não fez nada. Não consta. Chegou um momento em que, não se sabe nem porquê nem para quê, decide formar o universo.

JTM - O mistério aflige-o sempre...

JS - Limito-me a verificar. Construiu um universo. Coisa que, durante muito tempo, pareceu relativamente fácil, mas a partir de Darwin já não é tão fácil - e com as novas descobertas científicas... Depois, ao sétimo dia, descansou e continuou a descansar até hoje - não teve mais participação.

JTM - Não é a opinião de milhões de seres humanos ao longo de gerações. Porque não é sensível à experiência que os outros vivem?

JS - Não! Eu, às vezes, digo que deus e o diabo só têm um lugar onde habitar: é na cabeça humana. Não há outro lugar em parte nenhuma do universo onde eles possam estar. Estão na nossa cabeça. Até mesmo na minha cabeça.

JTM - Essa é uma visão sua.

JS - Minha?

JTM - O que é estranho é o seu desejo de excluir a Bíblia, de fazer de contas que ela não existe.

JS - Como pode dizer isso a mim, que escrevi o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" e, agora, o "Caim"? Eu sou aquele que diz que, embora seja ateu, estou empapado de valores cristãos.

JTM - Isso é muito bonito - e verdadeiro!

JS - Já o disse e repito-o em qualquer lugar. Mas isso não me impede de fazer juízos críticos sobre a religião.

JTM - No entanto, as suas entrevistas redundam facilmente numa caricatura. O que choca, por vezes, na sua linguagem, é o lado caricatural.

JS - Perdão: vocês merecem, tal como qualquer instituição, serem caricaturados. Vocês não estão acima da caricatura.

JTM - Nós não estamos, nem o José Saramago está.

JS - De acordo.

JTM - Mas é que, hoje, você tem muito mais força...

JS - Que a Igreja Católica?

JTM - Não! Isso não sei se é a sua ambição - mas não é a realidade. É preciso ver que a sua palavra tem uma responsabilidade social e civilizacional.

JS - Assumo-o totalmente.

JTM - Quando um homem de cultura diz que a Bíblia é um livro de crueldade, penso que isto, em termos civilizacionais, é um erro.

JS - É a sua opinião, não é a minha.

JTM - É um erro porque põe em xeque algumas das obras mais belas e extraordinárias que a nossa tradição cultural nos legou.

JS - Escute uma coisa: eu nunca neguei que a Bíblia é tudo isso que se diz dela. Claro que é.

JTM - Então diga alguma coisa bela da Bíblia. Fale com o coração!

JS - É quase uma simples questão estatística: milhões de exemplares da Bíblia lidos, estudados, aprendidos, decorados, em todo o mundo.

JTM - Ainda esta semana saiu mais uma tradução da Bíblia para português.

JS - Já tínhamos tantas! Porquê mais uma?

JTM - Dizer isso não parece uma coisa digna de si.

JS - Estou na brincadeira, homem!

JTM - Pois é! Está a ver? É que diz as coisas em tom jocoso, mas elas têm um alcance que não é justo. Você não pode dizer isso!

JS - O que me valeu foi ter escrito este livro donde a jocosidade não está ausente. Já o leu até ao fim?

JTM - Evidentemente que sim.

JS - Até ao dilúvio?

JTM - Até ao dilúvio e até a uma frase terrível com que o livro acaba, que é talvez uma das frases mais terríveis da literatura portuguesa: "A história acabou, não haverá nada mais que contar". Dá muito que pensar deste fecho definitivo da história. O exercício que faz, em si, é mais que legítimo. Mas a grande questão é que aquilo que diz, muitas vezes, é marcado por um exercício de intolerância.

JS - Eu, intolerante? Eu?

JTM - Todos podemos ser intolerantes. O José Saramago porque não pode ser intolerante? Todos podemos ser e todos certamente o somos.

JS - Se lhe quiser chamar radicalismo, aceito. Mas não intolerância. Não sou intolerante.

JTM - Aquelas declarações de Penafiel são declarações de intolerância.

JS - Não são nada!

JTM - Diz o José Saramago. É um manifesto de intolerância do ponto de vista cívico.

JS - Não é certo que o livro está cheio de crueldades? Que não lhe faltam incestos? Que tem isso e muito mais, e carnificinas de todo o tipo?

JTM - E acha que a Bíblia é só isso? Acha que descrevendo isso se descreve o que é a Bíblia? Acha que esquecendo tudo aquilo que a Bíblia é, que é também a sua natureza de milagre, está a ser tolerante? De que parábola é que gosta mais, das que Jesus contou?

JS - Talvez a do semeador. A semente que cai na pedra...

JTM - A Simone Weil dizia que entre dois homens que estão a discutir, um que crê e outro que não crê, o que não crê está mais perto de Deus do que aquele que crê.

JS - Oh diabo! Oh diabo!

JTM - Por isso é que o discurso cristão nunca pode ser um discurso de exclusão. Dizer que o cristianismo é sobretudo uma aventura de liberdade é para levar muito a sério. Ver o cristianismo do ponto de vista do poder, da força, da imposição, é um olhar possível, mas não faz justiça à radicalidade humana que o cristianismo foi semeando. Se quisermos fazer justiça à história, temos que perceber que o cristianismo está do lado dos heterodoxos, dos insubmissos, dos mártires, das vítimas, daqueles que não têm voz.

JS - Mas no que toca a vítimas, o cristianismo contribuiu com uma quota importante, não?

JTM - E chora e arrepende-se de todo o mal que fez.

JS - Desculpe, Tolentino, mas não demos por isso. Aqui, pelo menos, não chegou uma palavra que signifique isso. O que está a dizer são palavras de ouro, mas que provavelmente estão no seu desejo. Você desejaria que assim fosse.

JTM - Há tanta gente a dizer isto!

JS - Meu caro: não me tiram nem sequer um grama ou um átomo da minha raiva contra a instituição chamada igreja católica. Eu não sou nenhum ferrabrás, nem nenhum enviado do demónio. Mas o que merece crítica, pode contar com a minha pessoa. Ao contrário do que diz, eu não sou intolerante. Radical, sim. E a isso não renuncio. É uma atitude muito exigente, moralmente exigente, que me leva a insurgir-me contra o que não me parece bem.

JTM - Eu não digo que o José Saramago é intolerante. Digo que as suas palavras de domingo foram intolerantes, o que é uma coisa diferente. Ninguém está imune à intolerância. Talvez os momentos mais difíceis do cristianismo tenham sido aqueles em que, fechados em nós próprios, achámos que temos a razão, ou que não errámos, ou que estamos costurados no interior de uma certeza. Há palavras nossas que iluminam e outras que enegrecem. A sua postura ética, atitude moral, a sua intransigência, enobrece-nos a todos. É bom que um escritor seja exigente. Isto não significa que nas palavras que proferiu nós não víssemos uma limitação muito grande. E na forma como o seu romance está construído, há também zonas de ambiguidade, a começar pelo "livro dos disparates". A Bíblia é um grande património da humanidade, é um lugar onde todos nos encontramos. Pela primeira vez, todas as componentes da sociedade estão presentes numa grande narrativa literária, porque precisamente a Bíblia não exclui. A Bíblia é um coral de vozes humanas. E por isso é tão importante o papel de Caim - ele é o nosso irmão...

JS - Disse que é um coral, mas, sem querer ser frívolo - que não está nada na minha natureza, porque tomo tudo a sério -, com muitas desafinações.

JTM - Mas as desafinações fazem parte da história humana. É preciso amar a imperfeição!

JS - Não escrevi um livro sobre a Bíblia. Escrevi a partir de um episódio bíblico e construí uma história. Caim não foi um capricho de há uns meses, é algo que sempre me preocupou. A mim, a Bíblia permitiu-me escrever o que não estava dito - embora não tenha sido a primeira pessoa a fazê-lo.

JTM - Dizer isso é fazer um elogio extraordinário à Bíblia.

JS - Para terminar: escrevi, penso, alguns bons livros. No meu estado de espírito presente, considero este o meu melhor livro.

JTM - Tenho a humildade de não concordar. No conjunto da sua obra, este é um exercício, a par dos seus grandes livros.

JS - De exercício não tem nada, meu caro. Tire lá esses óculos e ponha outros, e leia-o como deve ser lido.

JTM - Li o livro com muita atenção e hei-de voltar a ele. Mas é uma narrativa que não tem a grande complexidade nem a invenção romanesca de outros romances. Mas percebo que esteja tremendamente ligado a este livro.

JS - Assim é. Dois homens de boa fé sempre se podem entender.



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Domingo, 25 de Outubro de 2009
José Saramago ao «DN»

É o escritor português mais polémico de todos os tempos. Se a reacção ao 'Evangelho segundo Jesus Cristo' foi épica,  a que 'Caim' recebeu é digna de um cenário de guerra em que de um lado, pensa-se, estão os ateus e do outro, admite-se, situam-se os crentes. O debate ainda vai no início, como a leitura do livro...

Ia à missa quando era criança?

Levaram-me duas vezes e não gostei. Tinha sete anos e aquilo pareceu-me incompreensível. Nós morávamos na Rua Fernão Lopes, numas águas--furtadas de um prédio, em Lisboa, de cinco andares que já não existe, que era o lugar onde a arraia-miúda morava porque os mais abastados ficavam com os apartamentos mais baixos. Houve alguém de uma família muito católica que perguntou à minha mãe se ela não se importava que me levassem à missa. E à minha mãe, que tanto fazia, disse: "Pois sim, levem."

Que idade tinha quando foi à missa?

Sete anos. Lembro-me de ter cometido um primeiro acto irreverente no momento da elevação, em que toda a congregação dos fiéis baixa a cabeça, e eu levantei a minha para ver o que é que se estava a passar: nada. Cheguei a casa e disse à minha mãe que não queria ir mais. Se não lhe tinha importado dizer que sim, tão-pouco lhe importou que eu tivesse dito que não.

Os seus pais não eram muito católicos?

Não. Eram católicos daquela maneira que se era onde a religião imperante é o catolicismo - levam os filhos à igreja quando nascem, depois seguem-se os outros sacramentos quando se seguem.

Então foi baptizado na Igreja Católica?

Fui, mas depois do baptismo não se passou nada, não houve confirmação. Não tive qualquer tipo de educação religiosa e na adolescência não aconteceu nenhuma crise religiosa. E vivi tranquilamente sempre, não foi assunto que me tirasse o sono. Fui crescendo, tornei-me adulto e depois, claro, li umas quantas coisas e uma delas foi a Bíblia.

Nasceu cinco anos depois das aparições e a sua infância decorreu durante a criação do mito de Fátima.

Sim, mas nunca me tocou, nem aos meus pais.

Não acreditou nas aparições?

Naquela altura, com poucos anos, era indiferente que acreditasse ou não acreditasse. Não percebia como é que a Virgem aparecia em cima de uma azinheira para dar um recado divino a três miúdos analfabetos. Acho que tudo isso foi uma montagem que continua a render.

Não vem daí este seu posicionamento?

Eu não disse aos 15 anos: "Isto é mentira e eu vou lutar contra isto." As coisas foram-se tornando claras, sem qualquer sombra de crise religiosa, apenas por curiosidade e por não entender.

A sua mulher, Pilar, foi freira. Não ficou chocada com esta sua narrativa?

Não, nada. Ela hoje não crê. E não é de hoje.

Conversou com ela sobre Caim?

Não. Eu tenho o meu trabalho, faço-o. Ela lê imediatamente aquilo que vou escrevendo - parecendo-me a mim que era algo um tanto ousado - mas nem me disse: "Não faças." Se alguma coisa disse, foi animar-me a continuar.

A religião sempre esteve presente nos seus livros.

Mais ou menos.

Desde o Levantado do Chão!

Na figura do padre... Desde há muitos anos que eu venho dizendo que a Bíblia tem umas quantas histórias mal contadas. Uma é a do David, supostamente o herói David, que matou o gigante Golias porque tinha uma "pistola", que era aquela funda, que se lhe parecia muito. Se Golias se aproximasse dele, provavelmente fazia-o em pedaços, mas David dispara-lhe uma pedra que atinge Golias na testa, este cai desmaiado e David aproxima-se e corta-lhe a cabeça. Onde é que está o acto heróico? Não há. Depois, o caso de Caim e de Abel tornou-se, de uma forma mais impressiva, consciente mais tarde. E desde então, não estive a pensar em Caim durante todos estes anos. De vez em quando, era uma questão que regressava, sobretudo quando se falava da Bíblia. No fim do ano passado, perguntei-me: "E se eu escrevesse sobre Caim?" Pareceu-me, naquela altura, uma tarefa um bocado complicada e afastei-a um pouco da cabeça. Mas ela voltou e eu fiz-lhe a vontade, o livro está aí.

Não foi nenhuma reacção a este Papa?

Só quis foi entender o que se passou naquele lugar onde Caim e Abel estão a sacrificar ao Senhor e Ele se comporta daquela maneira que nem sei como chamar-lhe ao aceitar o sacrifício de um e rejeitar o de outro. Um Deus não podia permitir-se esta desigualdade de tratamento! Era porque gostava mais da carne que das espigas?

Ratzinger é um Papa que não lhe agrada?

Os papas não têm de me agradar nem desagradar. Penso que os verdadeiros juízes das acções dos papas deveriam ser os crentes, pois eu não tenho nada a ver com isso. Não me agrada a figura, parece-me um hipócrita, mas, enfim, a Igreja Católica não acaba pelo facto de eu pensar assim.

A religião sempre foi um assunto que o preocupou. Escrever Caim foi uma razão para poder pensar essas questões?

Não. Eu não quis escrever sobre o assunto, não tenho planos de trabalho, não incluí a religião na lista das coisas que quereria trabalhar. Já teremos falado disso, de que eu obedeço a impulsos. Se escrevo um livro, não quer dizer que o livro seguinte siga a mesma direcção ou que seja uma ampliação do que disse no livro anterior. Para mim, desde sempre, considero um livro terminado como um livro fechado. Não volto a ele e não volto ao assunto. Se formos ao Manual de Pintura e de Caligrafia e acabarmos no Caim, vê-se que os livros não se repetem. Agora, como não sou inteiramente burro, ganhei muito cedo a consciência do peso da religião na vida humana. E como, depois, quando se entra em leituras históricas e se encontra com o desastre, digamos, do alargamento da influência do cristianismo, que isso custou cidades destruídas, milhares de pessoas mortas, assassinadas, degoladas, queimadas… As Cruzadas foram qualquer coisa que a Igreja devia pedir perdão! As Cruzadas, imediatamente idealizadas com esse absurdo de avançarem contra os inimigos aos gritos. Que sabem eles de Deus? Fiz essa pergunta a um teólogo há pouco tempo: o que é que sabem de Deus, afinal de contas? Não sabem nada, alguém um dia disse que Deus existe e depois os teólogos não têm feito outra coisa senão armar o andaime para que essa ideia se sustenha.

Então, tem acompanhado estas questões?

Mais ou menos e, ultimamente, fiz uma descoberta através de uma pessoa, de que Deus antes da criação do universo não tinha feito nada. Durante uma eternidade, que nem podemos avaliar quanta, até que chega a um momento em que decide criar o universo - não se sabe para quê - em seis dias e ao sétimo descansou. E continua a descansar até hoje! Quando digo, e sobre isso não tenho qualquer espécie de dúvida, que o ser humano inventou Deus e imediatamente se escravizou a ele, isto é óbvio! E depois aquilo que ultrapassa a minha capacidade de compreensão é o facto de que, se houvesse Deus, seria apenas um único Deus. Não podemos imaginar um céu dividido em três, quatro, cinco, dez ou cinquenta pedaços e um deles a governar. Portanto, se houvesse Deus, seria um só Deus. Se houvesse um Deus, por muito diferentes que fossem, seriam equivalentes, cada um o faria de acordo com a sua cultura, com o que quer que fosse, mas não é isso que se passa, cada igreja só pensa em derrotar a outra e cada religião só pensa em derrotar a outra. E foi o que se fez: os protestantes, os albigenses, os valdenses perseguidos, enforcados em França. Não há duas pessoas de um manto de religiões diferentes que se sentem a uma mesa e digam uma à outra: "Vamos acabar com isto." O facto religioso está aí, não se pode nada contra ele, e quando digo "acabar com as religiões", sou perfeitamente consciente de que isso não é possível. Mas a minha pergunta é esta: se crêem em Deus, crêem em um Deus. Portanto, até mesmo por respeito a ele, porque não se põem de acordo sobre uma palavra, simplesmente: paz? Paz entre as religiões.

As religiões estão a substituir as ideologias?

Aquilo a que chamamos ideologias nasceu depois de milhares de anos de religião. A religião, que é uma ideologia, precedeu o aparecimento recente daquilo a que nós chamamos ideologias.

Uma das críticas que lhe fizeram nesta polémica é que, sendo Prémio Nobel, não poderia fazer estas afirmações tão polémicas.

Ah, não?! Isso é caricato. Então um Nobel que me foi dado - supõe-se que por boas razões - seria paralela e contraditoriamente algo que deveria fazer-me calar e não tocar em certos assuntos? Era o que faltava!

Nesta polémica, após as críticas da Igreja, houve uma tentativa de a politizar com as declarações do eurodeputado Mário David...

Essas declarações não merecem comentário. Não tenho nada que dizer sobre isso.

Ele referia-se que em tempos ameaçara com a renúncia à cidadania portuguesa.

Que eu teria dito isso! Para além de tudo, é mentiroso, pois isso nunca aconteceu. A única coisa que disse - e o futuro nos dirá se tenho razão ou não - é que a união de Portugal com a Espanha será uma fatalidade. Positiva, espero, e que não retirará nada à cidadania portuguesa que continuaremos a ter. Nem ao hino, nem à língua, nem à cultura, nem a nada, até porque a confederação ibérica foi defendida no séc. XIX por muito boa gente como, por exemplo, Antero de Quental.

Continua a pagar os seus impostos cá?

Sempre e até ao último cêntimo. Sou mais honesto a pagar os meus impostos que muitos dos ricaços que estão por aí, que os sonegam, que os escondem e os levam para os paraísos fiscais.

Acha que este ataque imediato da Igreja foi uma tentativa de fazer um ensaio sobre a sua "cegueira" religiosa, ao afirmarem que é um livro unilateral?

Porque é que dizemos cegueira religiosa? É uma cegueira que impede de ver a religião ou é a religião que cega as pessoas?

Aceita que Caim é ingénuo?

Não! Quanto ao ingénuo, há sempre um grau de ingenuidade - felizmente - no que se faz, que é crer que se pode fazê-lo bem e tentar fazê-lo assim foi o que aconteceu comigo. Quanto a essa história, que para a Igreja é o cavalo-de-batalha, de que não levei em conta as leituras simbólicas, a minha resposta é esta: eu li um texto, que é o que difundem e não podem apagar. Se querem evitar leituras simbólicas, então ponham ao lado de cada pessoa um teólogo que explique ao leitor da Bíblia o que é que deve encontrar lá.

O livro saiu em Portugal, no Brasil e em Espanha, países maioritariamente católicos. Acha que esta reacção vai continuar?

Não, em Espanha, não. Publicou-se lá recentemente um livro do Fernando Vallejo, La puta de Babilonia, que se fosse eu a escrever aquilo cá em Portugal tinham-me dependurado num desses candeeiros da avenida. É de uma violência de denúncia e de crítica que é um autêntico bota--abaixo.

A reacção em Portugal deve-se a Caim ser escrito por José Saramago? Basta isso?

Se calhar, basta, mas eu não sou juiz nesse caso. O que digo é que a minha pessoa desperta muitos anticorpos nesta terra.

Que resultaram numa polémica nacional…

Uma polémica que, no fundo, não tem grande sentido. Se não fosse a requintada sensibilidade da Igreja em certos casos - outros há em que não teve nenhuma - isto não teria acontecido. Tive a ingenuidade de supor que a Igreja Católica não se ia meter nisto, porque era o Antigo Testamento. Como digo, e eles não negam e as sondagens ou inquéritos confirmam, os católicos não lêem a Bíblia. Quando muito, lêem o Novo Testamento, e algum mais curioso, ou mais amante da beleza de textos, irá ler o Cântico dos Cânticos, os Salmos e pouco mais. Era o que eu pensava que ia acontecer e não se compreende que pessoas tão habituadas à diplomacia secreta, como é a da Igreja, saltem à arena mal o livro saiu, tomando como pretexto as declarações que fiz em Penafiel. Só que o que disse em Penafiel já o tinha dito antes, que [a Bíblia] não é livro recomendável às crianças. Mas isso não quer dizer nada, os protestantes da facção evangelista são educados na interpretação literal - se é literal não é interpretação, é aquilo que lá já está - e é por aí se regem.

O seu pecado original foi ter feito aquelas declarações em Penafiel?

O que é que eu disse, afinal de contas?! Que na Bíblia há violência, crueldade, incestos e carnificinas? Isso não pode ser negado. Ainda que eu tenha chamado à Bíblia um manual de maus costumes, qualquer um o podia ter feito, porque é, efectivamente, o que é. Tudo quanto é negativo no comportamento humano está ali escrito.

Refere-se ao Antigo Testamento?

O Antigo Testamento é uma espécie de catálogo do pior da natureza humana. O que mostra que, tendo sido escrito há três mil anos, chegamos à triste conclusão de que a natureza humana não melhorou muito. A questão de Deus, que é o que aflige talvez mais aos crentes - um Deus que nunca viram ou que, como eu digo, nunca alguém se sentou a tomar um café com Ele -, é outra coisa.

Queria a Igreja, ou alguns dos representantes, que se levasse em conta as leituras simbólicas da Bíblia?

A grande crítica é que não deu o desconto de ser uma linguagem metafórica.

O que não me impede de considerar a literalidade do texto. Não é isso que está lá escrito? Se a leitura da Bíblia, tal qual ela se apresenta aos olhos de qualquer pessoa, não pode ou deve ser lida assim e se há que levar em conta as leituras simbólicas, então, repito, estão obrigados a colocar ao lado de cada pessoa que esteja a ler a Bíblica um teólogo que oriente essa leitura, para que não caia na tentação, parece que primária e ingénua, de tomar à letra o que lá está.

Não aceita estas críticas, portanto?

Não nego a possibilidade de uma leitura simbólica, ou duas, ou três, ou quatro, ou cinco ou as que quiserem. Mas que as leituras simbólicas e o trabalho da exegese não sirva para fazer de conta que a letra não existe. Não sou teólogo, nem para lá caminho, e não estava obrigado a complicar uma narração que queria simples e directa com introduções exegésicas ou lá do que gostariam. Aquilo que está ali foi lido assim durante séculos, apenas descontando aqueles em que a leitura da Bíblia esteve proibida pela Igreja Católica. É que a Igreja Católica tem muitos telhados de vidro, mas entretém-se a dizer que são os outros que os têm. E, por isso, armou-se uma polémica sem qualquer sentido.

Preferiria que não tivesse acontecido?

Uma coisa é uma opinião que se tem: o livro era mau, o livro não presta, o livro do ponto de vista da Igreja está incorrecto. Que se ficasse por aí.

A reacção, no entanto, foi imediata.

Logo na manhã seguinte já estavam todos alvoroçados a atacar-me! Apesar de terem uma experiência de séculos, podiam ser um pouco mais prudentes, mas são como os cãezinhos de Pavlov, reagem imediatamente ao estímulo. É lamentável. E a Igreja fez uma triste figura em tudo isso, pede-se-lhe mais responsabilidade. Quando disse que há muita frivolidade nos senhores da Igreja, é mesmo o que penso, porque só um comportamento frívolo é que explica isto.

Vários padres disseram que já começaram ou até já leram o livro. Acha que o conseguem ler como uma obra literária?

Não. Estão demasiado condicionados para ler tudo à luz dos preceitos que lhes foram incutidos, em que se criaram, educaram e prosperaram. Portanto, não vão ser capazes. Excepto um ou outro e eu até fiquei surpreendido quando ouvi um teólogo - uma coisa é um teólogo e outra é um padre -, Anselmo Borges, dizer que tinha gostado do livro. Mas a Igreja fará sempre afirmações que querem dizer: "Não devias ter escrito esse livro, devias ter escrito outro." Quer dizer, outro que estivesse de acordo com os preceitos da Santa Madre Igreja.

Também se fizeram ouvir representantes de outras religiões.

Sim, embora sem grande êxito, alguém pôs em marcha as outras confissões religiosas. Os judeus não deram grande importância...

Esperava pior reacção dos judeus?

Quem é que é directamente atingido? Os judeus, que continuam a considerar o Antigo Testamento, a Torah, como o livro sagrado por excelência. Há que dizer que não invento nada, limito-me a levantar as pedras e ver o que está debaixo. Se acho que uma pedra merecia ser levantada, é, justamente, a do assassínio de Abel. E fi-lo.

Caim sempre o perseguiu a vida toda?

Não, coitado do Caim. Desde que li, já lá vão muitos anos, a história de Caim e de Abel, logo me pareceu que havia ali qualquer coisa que não funcionava bem em termos de comportamentos normais, seja de seres humanos ou de Deus, se é que Deus tem algum comportamento normal. Caim mata Abel e o que se esperaria seria que Deus condenasse Caim, de uma forma radical por essa morte. Olho por olho, dente por dente. Mas não - propõe-lhe um pacto que consiste em "eu não te mato, ficas condenado à errância por toda a tua vida". E quando Caim, com uma preocupação bastante legítima, diz: "Mas, como eu matei o meu irmão, agora qualquer pessoa pode matar-me", Deus diz: "Não, porque eu vou pôr em ti um sinal que impede que te matem." Não é estranho? Há um comportamento que, por mais voltas que as igrejas que nasceram do cristianismo lhe dêem, não tem justificação.

A Bíblia não serve de exemplo?

Não consigo entender porque é que Deus aceita um sacrifício e rejeita o outro. Não sabia, omnissapiente e omnipotente, o que ia acontecer? Estava tão confiante na humildade de Caim que pensou que não aconteceria nada? Pois, aconteceu. Essa é a raiz do livro e não outra. Eu não quis escrever sobre a Bíblia, nunca a pretensão seria essa! Eu quis escrever sobre algo que continua para mim a ser incompreensível e, dado o comportamento de Deus numa situação como aquela, se repete ao longo da Bíblia a mesma indiferença e também a mesma crueldade, é por isso que eu digo que Deus não é de fiar. O que é que se pode dizer de um Deus que depois de ter prometido a Abraão que se houvesse dez inocentes em Sodoma não queimaria a cidade e a queima? Podemos ter a certeza, qualquer um de nós, pobres seres humanos, que sabia - sem ir contar os inocentes - que havia inocentes: as crianças. Queimadas como os seus pais e mães, e tudo mais. O que é isso? Prometer e não cumprir?

Pôr Caim a viajar no tempo foi a solução para tratar desses episódios que critica?

Ele viaja no tempo, mas essa história das viagens no tempo já se tornou um lugar-comum.

Mas nunca pela Bíblia?

Nunca na Bíblia, mas o problema que eu tinha para resolver era este: como é que Caim, na sua vida errante, vai encontrar algo que justifique o livro? Não usei, salvo para dizer que não usaria, as palavras futuro e passado. O que utilizei foi outra coisa, chamada presente-passado, ou presente-futuro. Portanto, tudo são presentes, o que acontece é que uns já estiveram e outros irão estar. Foi uma habilidade para fugir a essa coisa da viagem no tempo, embora no fundo o seja. Mas repare que não dou importância nem faço qualquer descrição sobre os efeitos dessa passagem.



publicado por blogoval às 08:55
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Sábado, 24 de Outubro de 2009
Caim de José Saramago

... video no jornal Expresso

 

 

A obra, que deitou mais fumo que chamas, torna deus num ser poderoso, com apetites, com a «espada» feita à medida de sua justiça. O homem, ou a humanidade, como um projecto falhado, um resultado da sua obra que não teve hipótese de recurso. Caim, homem marcado pelo destino, encarregado de ser juíz, protegido de deus, passará por episódios como o detentor da moral.

Deus torna-se um homem ganancioso, o homem regressa às cavernas.



publicado por blogoval às 22:01
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Terça-feira, 20 de Outubro de 2009
Sapiência Politica
Euro-deputado exorta Saramago a renunciar à cidadania
Via DN - «O eurodeputado social-democrata Mário David exortou hoje o escritor José Saramago a renunciar à cidadania portuguesa por se sentir "envergonhado" com as recentes declarações do Nobel da Literatura sobre a Bíblia.»....
 
Tanto que nós pugnamos por acabar com a nossa incapaz classe politica, e até exportamos alguns senhores para o parlamento europeu, mesmo com cabazes e reformas de luxo, eis que não quando, lá existe um que gosta de mostar o ar da sua graça.


publicado por blogoval às 21:26
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Caim - via Juan Arias jornalista d' O Globo
O Caim incómodo de Saramago

 

 

Não é tarefa fácil permitir-se ironizar, de forma irreverente e até mordaz, o único livro considerado Patrimônio da Humanidade, como é a Bíblia, cuja etimologia significa “O livro”, por antonomásia, a grande novela do mundo, a mais traduzida de todas as publicações da História.

José Saramago se atreveu a fazê-lo em seu novo romance, “Caim” (Companhia das Letras), que “não deixará indiferentes os leitores”, como afirmou sua mulher, Pilar del Rio. E ele o fez com a força literária que caracteriza suas obras.

Se tudo é permitido à ficção, mais ainda ao Nobel português, que nos tem presenteado sempre com uma literatura enraizada na vida, comprometida com os ataques à injustiça, capaz de fazer sangrar as palavras como em “Ensaio sobre a cegueira” ou este “Caim”, onde o escritor pretende acertar contas com deus — assim mesmo, grafado em minúsculas durante todo o livro. Curiosamente, o faz com um deus que ele mesmo afirma existir apenas na fantasia dos homens, uma invenção literária de todos os tempos. Poderíamos perguntar-lhe então por que voltou, depois de 20 anos, desde seu polêmico “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, a confrontar-nos de novo com a não existência de deus, a quem ele mesmo disse que não invocaria nem no momento da própria morte, porque nada teria a pedir.

É que Saramago é assim: o rei da polêmica e da ironia. Ele gosta de provocar. Existe e quer que o notem. Escreve em relevo, sobre pedra dura. Como nesta novela em que acusa deus de ter desprezado os sacrifícios que Caim lhe oferecia para preferir os de seu irmão Abel. Seria o deus caprichoso e injusto da Bíblia, aquele que se diverte expulsando Adão e Eva do Paraíso por terem querido conhecer o bem e o mal.

Chamam a nova obra do Nobel português de uma “reivindicação de Caim”. É e não é. Em todo o texto, no qual Caim é protagonista e narrador das atrocidades do deus bíblico, o irmão de Abel não nega seu crime e aceita sua vida errante como uma espécie de castigo. Não aceita, contudo, ser mais criminoso e cruel que deus. Se ele matou seu irmão — segundo Saramago, na realidade ele queria matar deus — esse deus cometeu muitos mais crimes que ele: assassinou milhares de inocentes ao despejar fogo sobre Sodoma e Gomorra e chega à crueldade máxima de pedir a Abraão que mate seu próprio filho. A dialética de Caim com deus é impecável. Se eu pequei, tu pecaste mais. Se eu matei meu irmão, tu mataste, ou mandaste matar, a muitos mais.

Mais do que a história romanceada de Caim, o escritor aborda em seu livro o absurdo de um deus que na Bíblia aparece mais cruel e caprichoso que o pior dos homens. Claro que ele escolhe para a obra as passagens mais inexplicáveis e obscuras do Antigo Testamento, nas quais aparece a figura do deus terrível do Sinai, do deus que pede sangue para ser vingado e obedecido cegamente.

A Bíblia é uma história de um povo em busca de seu destino, no qual se misturam mitos, metáforas e fatos históricos. É o espelho da Humanidade com suas baixezas e seus esplendores. O melhor e o pior de deus e da história $ão concentrados nesse livro, que poderia ser a imagem plástica da complexidade do ser humano. Existe na Bíblia o Pentateuco, com um deus ciumento que expulsa Adão e Eva do Paraíso; o que confunde caprichosa e gratuitamente as línguas daqueles que constroem a Torre de Babel; ou manda matar os habitantes de cidades inteiras. Existe o livro do Eclesiastes, contra a vaidade humana, que poderia ter sido escrito pelo pessimista Saramago; ou o Cântico dos Cânticos, com sua força erótica, um canto à beleza do corpo humano e à sua sexualidade. Um livro libertador.

O autor de “Caim” escolheu os textos mais duros e polêmicos. É que Saramago não concebe uma literatura desencarnada, incapaz de provocar não apenas polêmica como também desgosto. Muitos, não apenas judeus, poderão se sentir negativamente surpreendidos com a forma com que o escritor trata a Bíblia e a seu deus.

Saramago não escreveu apenas novelas. Sempre esteve e, aos 87 anos, continua a estar presente na História a cada vez que se trata de defender a dignidade do homem, sua liberdade sacrossanta, seu direito de crer ou não crer. E ele tem razão em mostrar que na Bíblia existe também esse deus cruel e exterminador que tão bem descreve Caim. Esse foi o deus escolhido por ele para ser desmascarado em seu novo livro. Tem todo o direito. A literatura não admite censuras. Os cristãos poderão dizer que na Bíblia, escrita há mil anos, existe também o deus do profeta Isaías, mais preocupado com o homem do que uma mãe. Porém é ao deus cruel que Saramago pede explicações, um deus que, segundo ele, não pode existir porque não seria deus.

Em meu livro “José Saramago: O amor possível” (Manati), uma longa conversa com o escritor meses antes de seu Prêmio Nobel, ele já havia antecipado seu ceticismo sobre a existência de deus que, em “Caim”, se faz ainda mais patente. Disse: “Do meu ponto de vista há apenas um lugar onde existe deus, ou o diabo, ou o bem e o mal, que é na minha cabeça. Fora da minha cabeça, fora da cabeça do homem não há nada”. O homem e apenas o homem é, definitivamente, o deus de Saramago — o homem vítima dos poderes tirânicos, o homem humilhado pela religião, o homem escravo de seus mitos, começando pelo mito de Caim e Abel que Saramago converte num jogo literário.

O escritor resume muito bem em “Caim”, na página 87, o que para ele é este conflito entre deus e o homem: “A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”.

Para Saramago, deus não é mais que um pretexto para que as religiões possam melhor escravizar a consciência humana. Com “Caim”, ele trata de deitar, literariamente, sobre o tapete do mundo, esta crua realidade. Ao mesmo tempo, e apesar de seu ateísmo, devemos a ele uma das definições mais poéticas da divindade: “Deus é o silêncio do universo, e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio”, afirmou ele em certa ocasião. Afinal, deus não é para ele tão indiferente como possa parecer. “Caim”, definitivamente, é também um grito contra todos os deuses falsos e ditadores criados para amordaçar o homem, impedindo-o de viver, em total liberdade, sua vida e seu destino.

Juan Arias é jornalista e escritor, autor de “José Saramago — O amor possível” (Manati), “A Bíblia e seus segredos” e “Jesus, esse grande desconhecido” (Objetiva)

Artigo publicado em O Globo, Brasil



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Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009
Caim - via JN
"É preciso ter cuidado quando se lê a Bíblia"
Em "Caim", a nova obra do Prémio Nobel da Literatura lançada, ontem, domingo, em Penafiel, o autor visita episódios do livro sagrado e volta a contar "histórias mal contadas"

 

Há que ter cuidado com o que se lê. E com a Bíblia mais cuidado ainda se deve ter. O aviso foi lançado, ontem, domingo, por José Saramago, numa breve sugestão ao conteúdo de "Caim", a sua obra mais recente.

O Prémio Nobel da Literatura afirma desconhecer por que motivo alguns episódios ganharam tanta relevância na civilização judaico-cristã. Em entrevista ao JN, não deixa de comentar outros episódios, mais políticos. E considera que nenhumas melhores mãos poderiam ter recebido, este ano, o Nobel da Paz do que as de Barack Obama.

Hoje [ontem] é o dia da apresentação mundial do seu novo romance, "Caim", em Penafiel. Depois de uma história sobre uma viagem de um elefante, digamos que regressa, agora, a temas mais profundos.

A história de um elefante que vai de Lisboa para a Áustria é um episódio real, que efectivamente sucedeu quando o rei D. João III resolveu oferecer um ao imperador da Áustria. Com isso, pode-se contar uma história, que está contada. Neste novo livro é diferente. Agora é pôr em questão a Bíblia sagrada, em que habitualmente não se toca. É sagrada e não se toca. Tem de haver uma leitura humana de tudo aquilo que existe, do que se passa, do que se escreve. É claro que pode haver uma leitura interpretativa. Agora, pôr uma verdade no lugar de outra, ou pôr aquilo que não é verdade no lugar da verdade do texto, da literalidade do texto, não me parece muito honesto.

E porquê "Caim"?

As coisas acontecem quando têm de acontecer. É um assunto que me interessa há muitíssimos anos. E - não sei como nem porquê - foi nesta altura que se me apresentou com força suficiente para me levar e sentar-me e a escrever.

Há temas da Bíblia que suscitam a sua curiosidade e que o obrigam a uma reflexão.

Sim, sim, há vários temas. Nunca fui um leitor assíduo da Bíblia, mas penso que a conheço bastante bem. Não porque seja crente, porque não sou, como toda a gente sabe. Há uns não sei quantos episódios que não se percebe bem por que se tornaram em referências culturais e filosóficas da civilização judaico--cristã.

Por exemplo, em "Caim" aborda o episódio de David e Golias e procura desmistificá-lo.

Esse episódio foi sempre apresentado da mesma maneira, a vitória do pequeno David contra o gigante Golias. O Golias é altíssimo, vem com a sua espada e com a sua couraça de bronze e tudo isso. E o David não passa de um jovem pastor. O resultado daquela luta está claríssimo: o Golias vai matar o David. Mas acaba sendo o David a matar o Golias. Mas matou como? O David tinha uma pistola - naquele tempo não havia pistolas, mas havia fundas. Era pastor e sabia como manejar uma pedra. Apanha o Golias na testa, que cai desmaiado. E David aproxima-se e corta-lhe o pescoço. Aí está uma história mal contada, porque a partir daqui criou-se o mito do pequeno valente David. A única coisa que se pode dizer é que teve a presença de espírito necessária para usar a funda naquela circunstância. Nada mais.

Caim e Abel é outro dos episódios que procurou explicar.

Esta história de Caim e Abel também está mal contada. Deus tem a sua parte de responsabilidade quando aceita o sacrifício de Abel e rejeita o sacrifício de Caim. Que Deus é esse que, para enaltecer um, despreza o outro? Por isso é preciso ter muito cuidado com aquilo que se lê. E no caso da Bíblia - a que costumo chamar um manual de maus costumes -, ainda mais cuidado é preciso ter.

 

E já tem nova obra em produção?

Estou a trabalhar noutro livro, mas é demasiado cedo para falar nele [Saramago anunciaria à noite - ver peça ao lado - que o próximo livro será publicado já para o ano].

A sua extensa produção literária saiu às ruas em Penafiel, com personagens dos seus livros a passear entre a população. O que pensa desta forma de trazer a literatura para os passeios, por onde passam os cidadãos?

A literatura pode ser posta na rua, não no sentido de mandar embora, mas de uma maneira organizada, em que a forma de apresentar se integra num conjunto organizado de acções. O importante é que a literatura entre em casa, porque é aí que as pessoas desfrutarão melhor dela. Considero inevitável que uma acção como esta em Penafiel venha a ter repercussões na cidade, como a celebração do Urbano Tavares Rodrigues certamente teve e que preparou a organização do certame para mais uma festa, que é esta.

É curioso que a apresentação mundial da sua última obra decorra numa cidade rural, longe dos grandes centros urbanos.

Haverá uma apresentação em Lisboa, mas aquilo a que chamaria pomposamente o lançamento oficial da obra faz-se aqui, em Penafiel. Pode-se e deve-se fazer coisas longe dos grandes meios, fora de Lisboa e Porto. Em Coimbra não falo, pois não tem havido lá nada de especial. No caso de Penafiel, já estive aqui algumas vezes antes, é uma cidade com vida cultural, um museu magnífico, da última vez que estive cá ainda estava em construção. A organização do certame "Escritaria 2009" quis fazer uma homenagem ao meu trabalho e houve a coincidência com o lançamento do meu livro. Então, decidimos fazer aqui o lançamento mundial.

O Prémio Nobel da Paz foi atribuído a Barack Obama. Há quem critique a nomeação do presidente dos EUA, por considerar que ainda tem pouca obra feita. Partilha da mesma opinião?

Muitas pessoas que nunca fizeram nada têm tendência para falar daquilo que eles acham que os outros já deviam ter feito. Obama, que é presidente dos EUA há menos de um ano, tem pela frente no seu próprio país uma quantidade de problemas gravíssimos para resolver. Podia ter-se dedicado exclusivamente a reformar o que está mal nos EUA e não lhe faltaria trabalho. Não o fez. A par disso, falou, comunicou e tem uma política externa bastante coerente. Vamos ver até onde pode ser levada. O que se pode dizer é que, de facto, ainda não há obra feita. Por exemplo, o problema do Afeganistão, se estivesse resolvido, era estupendo. Não está, e digamos que não estará tão cedo. Então, no que poderei estar de acordo é que a concessão do prémio foi prematura.

Então, também acha que se deveria ter esperado mais tempo?

Sim, poderia ter-se esperado um pouco mais. Ao mesmo tempo pode-se perguntar: mas esperar por quê? Bastava que a ideia tivesse nascido para que, só por isso, se tomasse essa ideia muito a sério. E parece que havia uma maioria contrária à atribuição do prémio, que acabou por converter-se numa unanimidade favorável. Assim, penso que se pode considerar a nomeação algo prematura, mas diria que não se encontraria no mundo melhores mãos para receber este prémio.

Nas recentes eleições legislativas portuguesas, a abstenção voltou a vencer. Não lhe parece nefasto este cada vez maior afastamento das pessoas face à vida política?

A abstenção não é um mal de agora. Agora, as causas da abstenção são muitas. Algumas culpas pertencem aos partidos, mas algumas culpas - e, na minha opinião, as mais sérias - cabem aos eleitores, porque eles não podem esperar que alguém os leve pela mão à assembleia de voto. São pessoas conscientes, que têm de saber o mundo em que estão ou a cidade em que se encontram e conhecer de uma maneira suficiente os problemas que há que resolver. Portanto, mesmo que não se entusiasmem pelo acto eleitoral, devem ir votar. Isto é muito mais complexo do que aquilo que parece, e não caiamos na tentação de atirar pedras sempre na mesma direcção, aos políticos. Algumas dessas pedras deviam cair na nossa cabeça, porque temos a nossa responsabilidade.



publicado por blogoval às 20:50
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Caim - via Jornal I
Saramago. As obsessões de um génio - vídeo
 
Na véspera de "Caim" chegar às lojas, Saramago reacendeu a polémica com a Igreja: "a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana" Viagem ao universo do Nobel português
O único prémio Nobel de Literatura em língua portuguesa edita hoje "Caim". Ao 19.o romance, José Saramago volta a pegar num momento em particular da história (como em "Memorial do Convento" ou "História do Cerco de Lisboa") e numa passagem da Bíblia (como em "O Evangelho Segundo Jesus Cristo"). Nas vezes anteriores em que navegou por esses temas conheceu a fama e a polémica. Com "Caim" como pano de fundo, recordamos as obsessões de José Saramago, o homem por trás dos romances.

Comunismo

"Marx nunca teve tanta razão como hoje", revista "Pública", Junho de 2008

E José Saramago é tão comunista hoje como nos tempos em que ajudou a fundar o Partido Comunista Português. As razões de Marx, que enuncia na entrevista acima citada para explicar e contextualizar a crise financeira mundial, utilizou-as a vida inteira. Membro do partido desde a década de 60, é descrito pelo jornal "Avante!", numa nota posterior à atribuição do Nobel da Literatura, como um homem com "uma vida indissoluvelmente ligada à defesa da liberdade, da democracia, das grandes causas sociais e políticas dos trabalhadores na luta pela sua emancipação". Ao jornal "Folha de São Paulo", Saramago descreveu o seu comunismo como uma questão "hormonal", uma espécie de convicção inscrita no seu código genético da qual não se conseguiria livrar - mesmo que quisesse. "Ser comunista é um estado de espírito", concluiu. Em entrevista à revista "Ler", em Junho do ano passado, o escritor mostrou alguma descrença quanto ao modelo comunista que falhou na União Soviética.

Ateísmo

"O planeta seria muito mais pacífico se fôssemos todos ateus", blogue "O Caderno de Saramago", Fevereiro de 2008

A Bíblia? "Um desastre", um livro repleto de "maus conselhos, incestos e matanças". E a Igreja Católica? "O sonho da Igreja é transformar todos em eunucos". Saramago não se esforça por esconder o seu ateísmo, uma convicção que tem quase a mesma força que uma fé. No entanto, "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (1991) e "Caim", editado agora, são obras inspiradas pelas sagradas escrituras. "Sou ateu mas não sou tolo", explicou à revista brasileira "Isto É", em 1991, "a sociedade onde cresci e onde vivemos não se concebe sem Deus. Na arte, na linguagem, na cultura popular e erudita, a religião cristã está presente." Saramago defende que o seu ateísmo é crítico e construtivo, que as questões que coloca devem ser pensadas por crentes e não crentes. "Como ateu, leio os Evangelhos de um ponto de vista mais livre, como se fosse um grande livro de história. O meu ateísmo não é destrutivo, mas sim crítico", diz na mesma entrevista. A semana passada, durante uma deslocação a Roma para apresentar o seu novo livro (uma compilação de textos do blogue "O Caderno"), Saramago apontou baterias ao Vaticano, ali tão perto: "Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar o seu neo-medievalismo universal, um Deus que jamais viu, com que nunca se sentou a tomar um café, demonstra apenas o absoluto cinismo intelectual da personagem." À imprensa italiana descreveu-se como "um ateu tranquilo".

Iberismo

"Não sou profeta, mas Portugal acabará por integrar-se em Espanha", "Diário de Notícias", Julho de 2007

Depois de o governo português vetar a candidatura de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" ao Prémio Literário Europeu, Saramago mudou-se para a ilha de Lanzarote, Espanha. Em auto-exílio desde 1992, o prémio Nobel foi bem recebido pelos leitores espanhóis e pela imprensa do país vizinho. A defesa do iberismo começaria pouco depois. "Não deixaríamos de falar português, não deixaríamos de escrever na nossa língua e, certamente, com dez milhões de habitantes, teríamos tudo a ganhar em desenvolvimento com esse tipo de aproximação e de integração territorial, administrativa e estrutural", disse em entrevista ao "Diário de Notícias", há dois anos. A Ibéria desejada pelo escritor encontra reflexo na fundação com o nome do autor de "Ensaio sobre a Cegueira". A Fundação José Saramago tem sede em Lisboa, Azinhaga (terra natal), Lanzarote e Castril, aldeia de origem da mulher, Pilar del Rio.

Pilar del Rio

"A Pilar, como se dissesse água", dedicatória em "Caim", livro publicado hoje

No novo livro de José Saramago nenhuma personagem tem o nome escrito com maiúsculas. Ao longo das quase 200 páginas de "Caim", a única pessoa identificada com primeiro e último nome grafados correctamente é Pilar del Rio - que não é, evidentemente, uma personagem da história. Contudo, desde que se conheceram, no final dos anos 80, que é dela o papel principal na vida do Nobel. Têm em comum o gosto pela literatura e o marxismo, conheceram-se em Lisboa quando a jornalista veio percorrer os caminhos do romance "O Ano da Morte de Ricardo Reis" e apaixonaram-se depois de terem lido poemas de Fernando Pessoa no Cemitério dos Prazeres. Saramago dedica-lhe todos os livros - nas reedições de obras antigas, trocou o nome da ex-mulher pelo da jornalista espanhola. Na Azinhaga, terra natal do escritor, a Rua José Saramago faz esquina com a Rua Pilar del Rio, ambas inauguradas em Maio do ano passado. "Faz de conta que é outro casamento", disse na altura à agência Lusa. O terceiro. Saramago e Pilar casaram- -se em Lisboa em 1998, e renovaram os votos em Castril, aldeia onde nasceu Pilar, nove anos depois.


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