A Incerteza do movimento de uma bola Oval "¿Qué clase de mundo es éste que puede mandar máquinas a Marte y no hace nada para detener el asesinato de un ser humano?" José Saramago
Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009
Homenagem da Fund. José Saramago aos Prémios Nobel
Copiado e colado daqui...
10 de Dezembro - Prémios Nobel 2009

 

Em Estocolmo e em Oslo celebram-se hoje as cerimónias de entrega dos Prémios Nobel. Homens e mulheres serão distinguidos pelos seus trabalhos de investigação e criativos, esses que melhoram as condições de vida dos seres humanos.

A Fundação Saramago felicita os Prémios Nobel deste ano, dos prémios científicos, ao Prémio Nobel da Paz, à Prémio Nobel da Literatura. E recordando que há onze anos um escritor português recebeu o galardão, olhamos para trás e recuperamos os nomes de todos os escritores e escritoras distinguidos nos cento e oito anos de vida do Prémio. Com um vídeo aproximamo-nos dos seus nomes, com a música de Fernando Tordo dos poemas de alguns galardoados, com um conto de Herta Müller à literatura distinguida neste ano de 2009.

É a nossa particular homenagem aos Prémios Nobel no seu dia especial.

 

A macieira

Antes da guerra havia uma macieira atrás da igreja. Era uma macieira que devorava as suas próprias maçãs.

O pai do guarda-nocturno também tinha sido guarda-nocturno. Numa noite de verão ele estava por detrás da sebe de buxo. Viu como a macieira abriu uma bocarra mesmo no alto do tronco, no sítio onde os ramos se separam. A macieira devorava maçãs.

Ao amanhecer, o guarda-nocturno não se foi deitar. Foi ter com o juiz de paz da aldeia. Contou-lhe como a macieira atrás da igreja devorava as suas próprias maçãs. O juiz pôs-se a rir. O riso fazia-lhe estremecer as pestanas. O guarda-nocturno ouvia o medo através do riso dele. Nas fontes do juiz batiam os pequenos martelos da vida.

O guarda-nocturno foi para casa. Deitou-se vestido. Adormeceu. Adormeceu banhado em suor. Enquanto dormia, a macieira esfregou tanto as fontes do juiz que as feriu. Tinha os olhos vermelhos e a boca seca.

Depois do almoço, o juiz deu uma tareia na mulher. Tinha visto na sopa maçãs a flutuar. E tinha-as engolido.

O juiz não conseguiu adormecer depois de comer. Fechou os olhos e ouvia o ruído das cascas das árvores do outro lado da parede. As cascas das árvores estavam suspensas em fila. Balouçavam presas por cordas e devoravam maçãs.

À noite, o juiz de paz organizou uma reunião. As pessoas juntaram-se. O juiz criou uma comissão para vigiar a macieira. Pertenciam à comissão quatro grandes lavradores, o padre, o professor e o próprio juiz da aldeia.

O professor fez um discurso. Denominou a Comissão para a vigilância da macieira «Comissão-para-uma-noite-de-verão». O padre recusou-se a vigiar a macieira atrás da igreja. Benzeu-se três vezes. Desculpou-se dizendo: «Que Deus lhes perdoe.» Ameaçou ir no dia seguinte à cidade para denunciar ao bispo aquela blasfémia.

Naquela noite escureceu tarde. O calor era tanto que o sol não conseguia encontrar o fim do dia. A noite brotou da terra e inundou a aldeia.

A Comissão-para-uma-noite-de-verão escondeu-se ao longo da sebe de buxo logo que escureceu. Meteu-se debaixo da macieira. Pôs-se a olhar o emaranhado dos ramos.

O juiz tinha um machado. Os lavradores pousaram as forquilhas na erva. O professor sentou-se debaixo de um saco, empunhando um caderno e um lápis, com uma lanterna ao lado. Olhava com um olho pelo buraco do saco, por onde mais não cabia que um polegar. Fazia o relatório.

A noite já ia adiantada. Tinha empurrado o céu para longe da aldeia. Era meia-noite. A Comissão-para-uma-noite-de-verão esbugalhava os olhos para o céu que fugia. O professor olhou por baixo do saco para o relógio de bolso. A meia-noite já lá ia. O relógio da igreja não tinha batido as horas.

O padre tinha desligado o relógio da igreja. As suas rodas dentadas não deviam medir o tempo do pecado. O silêncio havia de acusar a aldeia.

Na aldeia ninguém dormia. Os cães estavam especados nas ruas. Não ladravam. Os gatos empoleiravam-se nas árvores. Observavam tudo com olhos incandescentes de luz.

As pessoas estavam sentadas em casa. As mães embalavam os filhos à luz das velas. As crianças não choravam.

Windisch tinha estado sentado debaixo da ponte com Barbara.

O professor tinha visto o meio da noite no seu relógio de bolso. Estendeu a mão fora do saco. Fez um sinal à Comissão-para-uma-noite-de-verão.

A macieira não se mexia. O juiz pigarreou para quebrar o silêncio. Um dos lavradores foi sacudido pela tosse de fumador. Rapidamente colheu um punhado de erva. Enfiou a erva na boca. Enterrou a tosse.

Duas horas depois da meia-noite, a macieira começou a estremecer. Lá em cima, onde se separavam os ramos, abriu-se uma bocarra. A bocarra devorava maçãs.

A Comissão-para-uma-noite-de-verão ouvia a bocarra tasquinhar. Do outro lado da parede, na igreja, os grilos cantavam.

A bocarra devorou a sexta maçã. O juiz correu para a macieira. Deu-lhe uma machadada na bocarra. Os lavradores ergueram as forquilhas. Postaram-se atrás do juiz.

Um pedaço de casca de árvore com uma lasca de madeira amarelada e húmida caiu na erva. A macieira fechou a bocarra.

Nenhum dos da Comissão-para-uma-noite-de-verão tinha visto quando e como a macieira fechara a bocarra.

O professor esgueirou-se para fora do saco. Como professor que era devia ter visto, disse o juiz. Às quatro horas da manhã o padre dirigiu-se para a estação com a sua longa sotaina preta sob o seu grande chapéu preto ao lado da sua pasta preta. Ia apressado. Não levantava os olhos do pavimento. O amanhecer espelhava-se nas paredes das casa. A cal estava clara.

Três dias depois o bispo veio à aldeia. A igreja estava cheia. As pessoas viram o bispo atravessar as filas de bancos ao dirigir-se para o altar. Subiu ao púlpito.

O bispo não rezou. Disse que tinha lido o relatório do professor. Que se tinha aconselhado com Deus. «Deus já o sabe há muito tempo», gritou ele, «Deus recordou-me Adão e Eva», disse o bispo em voz baixa, «Deus disse-me: Na macieira está o diabo».

O bispo tinha escrito uma carta ao padre. Escreveu a carta em latim. O padre leu a carta do alto do púlpito. Por causa do latim o púlpito dava a impressão de ser muito alto. O pai do guarda-nocturno disse que não tinha ouvido a voz do padre.

Quando o padre acabou de ler a carta, fechou os olhos. Pôs as mãos e começou a rezar em latim. Desceu do púlpito. Parecia mais pequeno. Tinha o rosto cansado. Voltou-se para o altar. «Não devemos abater a árvore. Temos de a queimar de pé», disse ele.

O velho peleiro teria gostado de comprar a árvore ao padre. Mas o padre disse: «A palavra de Deus é sagrada. O bispo sabe o que diz.» À noite os homens trouxeram uma carrada de palha. Os quatro lavradores ataram a palha ao tronco. O presidente da câmara subiu à escada de mão. Espalhou a palha pela copa.

O padre estava do outro lado da macieira e rezava em voz alta. Ao longo da sebe de buxo estava o coro da igreja cantando melopeias. Fazia frio, e a exalação dos cânticos subia ao céu. As mulheres e as crianças rezavam em voz baixa.

O professor pegou fogo à palha com uma lasca de madeira a arder. A chama devorou a palha. Crescia. A chama engoliu a casca da árvore. O fogo crepitava na madeira. A copa da árvore lambia o céu. A lua cobriu-se.

As maçãs inchavam. Rebentavam. O sumo chiava. O sumo uivava no fogo que nem carne viva. O fumo cheirava mal. Fazia arder os olhos. Os cânticos foram interrompidos pela tosse.

Até que caíram os primeiros pingos de chuva, a aldeia ficou mergulhada em fumo. O professor escrevia no caderno. Chamou a este fumo «névoa de maçã».

Herta Müller

Tradução de Maria Antonieta C. Mendonça

Extraído do livro O Homem é Um Grande Faisão sobre a Terra, Livros Cotovia, Lisboa, 1993

Com um agradecimento à Editora

A macieira, conto de Herta Müller (Livros Cotovia)



publicado por blogoval às 21:26
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