A Incerteza do movimento de uma bola Oval "¿Qué clase de mundo es éste que puede mandar máquinas a Marte y no hace nada para detener el asesinato de un ser humano?" José Saramago
Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009
Caim - via JN
"É preciso ter cuidado quando se lê a Bíblia"
Em "Caim", a nova obra do Prémio Nobel da Literatura lançada, ontem, domingo, em Penafiel, o autor visita episódios do livro sagrado e volta a contar "histórias mal contadas"

 

Há que ter cuidado com o que se lê. E com a Bíblia mais cuidado ainda se deve ter. O aviso foi lançado, ontem, domingo, por José Saramago, numa breve sugestão ao conteúdo de "Caim", a sua obra mais recente.

O Prémio Nobel da Literatura afirma desconhecer por que motivo alguns episódios ganharam tanta relevância na civilização judaico-cristã. Em entrevista ao JN, não deixa de comentar outros episódios, mais políticos. E considera que nenhumas melhores mãos poderiam ter recebido, este ano, o Nobel da Paz do que as de Barack Obama.

Hoje [ontem] é o dia da apresentação mundial do seu novo romance, "Caim", em Penafiel. Depois de uma história sobre uma viagem de um elefante, digamos que regressa, agora, a temas mais profundos.

A história de um elefante que vai de Lisboa para a Áustria é um episódio real, que efectivamente sucedeu quando o rei D. João III resolveu oferecer um ao imperador da Áustria. Com isso, pode-se contar uma história, que está contada. Neste novo livro é diferente. Agora é pôr em questão a Bíblia sagrada, em que habitualmente não se toca. É sagrada e não se toca. Tem de haver uma leitura humana de tudo aquilo que existe, do que se passa, do que se escreve. É claro que pode haver uma leitura interpretativa. Agora, pôr uma verdade no lugar de outra, ou pôr aquilo que não é verdade no lugar da verdade do texto, da literalidade do texto, não me parece muito honesto.

E porquê "Caim"?

As coisas acontecem quando têm de acontecer. É um assunto que me interessa há muitíssimos anos. E - não sei como nem porquê - foi nesta altura que se me apresentou com força suficiente para me levar e sentar-me e a escrever.

Há temas da Bíblia que suscitam a sua curiosidade e que o obrigam a uma reflexão.

Sim, sim, há vários temas. Nunca fui um leitor assíduo da Bíblia, mas penso que a conheço bastante bem. Não porque seja crente, porque não sou, como toda a gente sabe. Há uns não sei quantos episódios que não se percebe bem por que se tornaram em referências culturais e filosóficas da civilização judaico--cristã.

Por exemplo, em "Caim" aborda o episódio de David e Golias e procura desmistificá-lo.

Esse episódio foi sempre apresentado da mesma maneira, a vitória do pequeno David contra o gigante Golias. O Golias é altíssimo, vem com a sua espada e com a sua couraça de bronze e tudo isso. E o David não passa de um jovem pastor. O resultado daquela luta está claríssimo: o Golias vai matar o David. Mas acaba sendo o David a matar o Golias. Mas matou como? O David tinha uma pistola - naquele tempo não havia pistolas, mas havia fundas. Era pastor e sabia como manejar uma pedra. Apanha o Golias na testa, que cai desmaiado. E David aproxima-se e corta-lhe o pescoço. Aí está uma história mal contada, porque a partir daqui criou-se o mito do pequeno valente David. A única coisa que se pode dizer é que teve a presença de espírito necessária para usar a funda naquela circunstância. Nada mais.

Caim e Abel é outro dos episódios que procurou explicar.

Esta história de Caim e Abel também está mal contada. Deus tem a sua parte de responsabilidade quando aceita o sacrifício de Abel e rejeita o sacrifício de Caim. Que Deus é esse que, para enaltecer um, despreza o outro? Por isso é preciso ter muito cuidado com aquilo que se lê. E no caso da Bíblia - a que costumo chamar um manual de maus costumes -, ainda mais cuidado é preciso ter.

 

E já tem nova obra em produção?

Estou a trabalhar noutro livro, mas é demasiado cedo para falar nele [Saramago anunciaria à noite - ver peça ao lado - que o próximo livro será publicado já para o ano].

A sua extensa produção literária saiu às ruas em Penafiel, com personagens dos seus livros a passear entre a população. O que pensa desta forma de trazer a literatura para os passeios, por onde passam os cidadãos?

A literatura pode ser posta na rua, não no sentido de mandar embora, mas de uma maneira organizada, em que a forma de apresentar se integra num conjunto organizado de acções. O importante é que a literatura entre em casa, porque é aí que as pessoas desfrutarão melhor dela. Considero inevitável que uma acção como esta em Penafiel venha a ter repercussões na cidade, como a celebração do Urbano Tavares Rodrigues certamente teve e que preparou a organização do certame para mais uma festa, que é esta.

É curioso que a apresentação mundial da sua última obra decorra numa cidade rural, longe dos grandes centros urbanos.

Haverá uma apresentação em Lisboa, mas aquilo a que chamaria pomposamente o lançamento oficial da obra faz-se aqui, em Penafiel. Pode-se e deve-se fazer coisas longe dos grandes meios, fora de Lisboa e Porto. Em Coimbra não falo, pois não tem havido lá nada de especial. No caso de Penafiel, já estive aqui algumas vezes antes, é uma cidade com vida cultural, um museu magnífico, da última vez que estive cá ainda estava em construção. A organização do certame "Escritaria 2009" quis fazer uma homenagem ao meu trabalho e houve a coincidência com o lançamento do meu livro. Então, decidimos fazer aqui o lançamento mundial.

O Prémio Nobel da Paz foi atribuído a Barack Obama. Há quem critique a nomeação do presidente dos EUA, por considerar que ainda tem pouca obra feita. Partilha da mesma opinião?

Muitas pessoas que nunca fizeram nada têm tendência para falar daquilo que eles acham que os outros já deviam ter feito. Obama, que é presidente dos EUA há menos de um ano, tem pela frente no seu próprio país uma quantidade de problemas gravíssimos para resolver. Podia ter-se dedicado exclusivamente a reformar o que está mal nos EUA e não lhe faltaria trabalho. Não o fez. A par disso, falou, comunicou e tem uma política externa bastante coerente. Vamos ver até onde pode ser levada. O que se pode dizer é que, de facto, ainda não há obra feita. Por exemplo, o problema do Afeganistão, se estivesse resolvido, era estupendo. Não está, e digamos que não estará tão cedo. Então, no que poderei estar de acordo é que a concessão do prémio foi prematura.

Então, também acha que se deveria ter esperado mais tempo?

Sim, poderia ter-se esperado um pouco mais. Ao mesmo tempo pode-se perguntar: mas esperar por quê? Bastava que a ideia tivesse nascido para que, só por isso, se tomasse essa ideia muito a sério. E parece que havia uma maioria contrária à atribuição do prémio, que acabou por converter-se numa unanimidade favorável. Assim, penso que se pode considerar a nomeação algo prematura, mas diria que não se encontraria no mundo melhores mãos para receber este prémio.

Nas recentes eleições legislativas portuguesas, a abstenção voltou a vencer. Não lhe parece nefasto este cada vez maior afastamento das pessoas face à vida política?

A abstenção não é um mal de agora. Agora, as causas da abstenção são muitas. Algumas culpas pertencem aos partidos, mas algumas culpas - e, na minha opinião, as mais sérias - cabem aos eleitores, porque eles não podem esperar que alguém os leve pela mão à assembleia de voto. São pessoas conscientes, que têm de saber o mundo em que estão ou a cidade em que se encontram e conhecer de uma maneira suficiente os problemas que há que resolver. Portanto, mesmo que não se entusiasmem pelo acto eleitoral, devem ir votar. Isto é muito mais complexo do que aquilo que parece, e não caiamos na tentação de atirar pedras sempre na mesma direcção, aos políticos. Algumas dessas pedras deviam cair na nossa cabeça, porque temos a nossa responsabilidade.



publicado por blogoval às 20:50
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